12 novembro 2009

Apenas medio elenco estable


me gusta mirar
la lluvia
que cae
por las
calles
en las tardes
de gris.


tarde o temprano
me vuelvo lejano
y quedo a pensar
se todo no pasa
de broma del
tiempo,
o se fuera feliz.

08 novembro 2009

O MONSTRO DO LAGO

Ei-la, do alto da sua cadeira almofadada, com uma régua de madeira nas mãos ela vigia a conduta da sua única aluna que termina um trabalho com lápis de cor. A professora usa os cabelos soltos, bem corridos, caídos sobre os ombros. A gravidade do seu rosto já dá indícios de um temperamento forte e do gênio voluntarioso que tem. As manchas perto da sua boca dão a entender que andou comendo chocolate recentemente... A professora é uma menina de quatro anos, que apesar da pouca idade, dirige a sua escola de uma única aluna com pulso firme. A aluna, sua prima, tem dezoito. Mas nem a grande diferença de idade impede a pequena ditadorazinha de impor a sua vontade sobre a pupila.
Cedendo à tentação a professora, usando a destra com habilidade invejável, começa também a colorir. Divide o papel com uma linha na porção inferior, desenha um retângulo fechado por um dos lados com a linha já traçada, um triângulo aproveitando a base oposta do retângulo, e assim, com traços decididos (como era de se esperar, do seu pulso firme de educadora de quatro anos de idade) termina o que pode ser visto como um prédio. Ou como uma nave espacial, tudo depende se as janelinhas são redondas ou retangulares.
Finalmente, dá uma folguinha para sua aluna e abandona a mesa da cozinha, mas não sem antes dizer um "fica comportadinha, viu?". Se dirige até o quarto do primo mais velho e o convida para brincar também. O primo a segura por debaixo do braço, levantando-a sobre a cabeça e dá um beijo na sua barriga. A professora aceita o destino com um estoicismo incrível, depois, o primo volta a professora pro chão firme e se joga na sua cama para retomar a leitura de um livro. "Brinca com a gente, Gui!" ela insiste, puxando-o pelo braço. O convence, mas seu poder de persuasão não é tanto quanto ela imagina. O primo invade a sala de aula, bagunça os lapis, belisca a aluna, que é sua irmã, morde a professora, rouba um copo com suco e um pão caseiro e retorna para o quarto. "Eu sou o Mooooonstro do LAAAAAGO", diz enquanto se serve do suco. A professora têm medo. A aluna, irritada, arruma a bagunça que o monstro do lago deixou na sala de aula. A professora então, assustada, diz que é preciso se proteger do monstro. A besta do lago ainda tem tempo de dizer um "Não se preocupa, o monstro do lago só aparece uma vez por mês!", daí bate a porta do seu quarto.
A pequena professora então conclui que o monstro do lago deve ser algum tipo de cobrador ou conta de luz. Pacientemente, retoma as atividades naquela escola instalada na cozinha de um apartamento da região metropolitana de Brasília. E a paz volta a reinar por aqueles lados.

24 outubro 2009

A última coisa que Epifânio Barreiros lembraria na hora da morte seria que esquecera de dar os vinte contos de réis que devia ao senhor Joaquim Ulhôa.

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Naquele mesmo dia, cinco horas antes morrer, Epifânio Augusto de Oliveira e Barreiros passara toda a manhã dentro do seu gabinete limpando escrupulosamente o rifle Winchester 1895, enfurnado em um dos vastos cômodos da sua casa da cidade, instalada no largo dos Faria de frente ao cemitério. O rifle teria ficado pendurado na parede do gabinete por vários anos desde o dia em que ele havia disparado contra o próprio irmão por uma disputa de terras.

Fazia uma semana desde que o primeiro aviso havia chegado alertando que o Terceiro Destacamento da Coluna Prestes avançava em direção à cidade de Sant'Ana dos Pilões. Um mascate vindo da direção de São Sebastião dos Cristais foi o primeiro a alertar para o fato do bando tomar o rumo da cidade, mas nenhum dos homens de bem deu crédito ao que o mascate dizia. Quatro dias depois o senhor Epifânio Barreiros recebeu em sua casa um negrinho que dizia ter vindo a mando de Raul Adjuto para avisar que dois homens que usavam lenços vermelhos presos no pescoço foram abatidos nos lados do rio São Marcos, e ambos estavam armados.

Epifânio Barreiros repassou a notícia ao delegado e ao senhor Joaquim Ulhôa, que então era presidente da câmara municipal, mas ambos acharam cedo demais para alertar a população. "Eles vão passar direto, Coronel" dizia Joaquim Ulhôa, "não há nada por esses lados que possa interessar a essa gente, a não ser a poeira e os pretos; mas a gente pode encontrar os dois em todo lugar". Era um homem gordo, de olhos pequenos e de um grande nariz afilado, principal herança física que transmitiria aos seus filhos - legais ou bastardos. Em verdade, o que preocupava mais o senhor Joaquim Ulhôa era outro assunto, "E quanto ao dinheiro do gado, Coronel, o senhor poderia se achegar pra jantar conosco dia desses, daí conversamos melhor".

Sant'Ana dos Pilões já fora um povo importante na época em que chamavam as Minas Gerais de província, e não de estado. Muito tempo atrás, o avô do avô do avô do senhor Epifânio Barreiros se instalara na aldeia que os bandeirantes paulistas haviam construído quando encontraram ouro nos aluviões de um córrego largo nascido em uma serra com formato de um pilão. Desde então, o seu sobrenome participou e assistiu todas as etapas da história do lugar: a emancipação febril concedida por dona Maria Louca (rainha de Portugal), a rápida ascensão do mercado do ouro na região e o êxodo que se seguiu na cidade ao fim do ouro fácil. Só ficaram na cidade aqueles que não tinham onde ir e aqueles que tinham terras por aquelas bandas.

Depois foi a guerra do Paraguay, os Barreiros enviaram para o Exército Imperial vários escravos para lutar na contenda, e inclusive o primeiro Epifânio Augusto Barreiros teria lutado na Batalha do Riachuelo, e é por esse motivo que chamavam qualquer homem da família dos Barreiros de "Coronel". A história seguiu com a libertação dos negros, a proclamação da República e outras mudanças de um cosmo maior que não afetava diretamente a realidade na cidade de Sant'Ana: continuava-se fazendo calor, as negras de ancas largas ainda lavavam roupa na prainha dos macacos e as principais famílias do lugar ainda ditavam as regras, como sempre fora e como sempre haveria de ser, com a graça do Nosso Santíssimo Senhor Jesus Cristo.

Agora, um tal de Siqueira Campos, subalterno de um outro tal Luís Carlos Prestes, que saía por aí espalhando a desordem no país com uma horda de maltrapilhos armados, ameaçavam a rotina sacramentada pelo tempo naquele lugarejo esquecido tanto pelo deus cristão quanto pelos deuses negros. Por isso os homens de bem do lugar teriam que pegar em armas mais uma vez para defender a cidade dos revoltosos. Antônio de Siqueira Campos não fazia idéia, mas a simples menção da sua chegada mudaria toda a história de uma família.

02 outubro 2009

"com deus não me deito
e nem me levanto
mas com a virgem maria
seria uma noite e tanto"
Mário Prata

12 setembro 2009

Detesto o silêncio

Não o silêncio do meu quarto, mas sim o silêncio entre duas pessoas.

Naquela noite, tínhamos ido ao teatro. Ela, como sempre, foi crítica até demais: achou a iluminação ruim e a acústica mal implementada. Eu achei legal. A atriz principal interpretava Elektra filha de Agamênon, e tinha uma voz levemente fanhosa. Coisa besta, que quase ninguém deve ter percebido (talvez pela acústica ruim), mas eu percebi. E imaginei a Elektra de verdade - se houver existido uma - sofrendo com problemas de dicção. Ri disso. Ela não entendeu o motivo do meu humor. Fechou a cara e recomeçou a criticar a iluminação.

De lá passamos num supermercado pra comprar bebida. Ela dirigia e isso sempre me deixou incomodado - o fato de depender do carro dela para saírmos. Acho que é uma das atitudes ditas provincianas que eu não conseguia largar. Mal dos homens do interior. Por isso eu fazia questão de pagar suas coisas. O ingresso do teatro, a conta do jantar e a garrafa da vodka com frutas. Poderíamos beber ali no estacionamento, mas com a lei seca os polícias de Brasília andavam rondando esses locais exatamente com a intenção de flagrar motoristas bebendo pra multá-los logo adiante; por isso fomos pro mirante. E no carro mais uma vez: silêncio.

Descemos a pista do mirante ao lado da ponte, ela estacionou no gramado onde antes havia um carrinho de cachorro quente. Descemos do carro, eu com a garrafa na mão e ela com um casaco, braços cruzados bem apertados contra o peito. Resolvi quebrar aquele gelo:

- acho que vai chover. olhei para o céu - nublado, mas sem sinal de chuva.

- acho que a gente tem que beber. ela me disse e se aproximou de mim, passando o braço pelo meu, me trazendo para perto.

Sentamos na grama e eu pelejei para abrir a garrafa. Uma, duas, três tentativas. Mais uma surra no meu ego masculino, e como de costume xinguei alguma coisa. Ela riu. E eu abri a garrafa, passei pra ela e fiquei torcendo minha mão direita. Gole curto. Careta. Gole longo.

- o lago a noite é lindo. me lembra o mar.

- é. (ela tinha me passado a garrafa)

- e se tiver greve?

- se tiver greve eu vou pra casa. que se foda o estágio.

ela torceu o nariz. eu havia comentado sobre o estágio, mas não sobre ela. sobre nós. Ficamos em silêncio mais uma vez.

- Detesto o silêncio... Esses silêncios que incomodam. Sabe como você sabe quando tem uma pessoa pra vida toda? Quando você pode ficar em silêncio com ela por quarenta minutos inteiros e não se incomodar com isso.

- isso é do Tarantino? (ela perguntou depois de eu tê-la devolvido a garrafa).

- Tarantino. Sim.

- você tá ficando bobo com esses filmes... (me devolve a garrafa sem beber).

Eu bebo. Mais pela frustração do que por vontade. Enquanto estou bebendo não tenho que falar. E agora, algum tempo depois, posso pensar direito sobre o ocorrido. Eu já tinha perdido. Ela já não queria mais.


Passei a garrafa.

Aproximei pra beijá-la - nós homens tentamos às vezes corrigir certas coisas com beijo ou sexo, algumas delas detestam isso.

Ela afastou o rosto.

- eu quero ir embora... nem me olhou quando disse.

- eu quero ficar.

olhava pro lago. e pior do que o silêncio, é o gosto da frustração. Aquela frustração que senti quando ela se levantou sem me dizer uma única palavra, entrou no carro e se foi. Mais uma vez, silêncio. Ela não estava lá, mas o silêncio entre nós havia ficado. Pelo menos restava a garrafa. Vodka e frutas vermelhas. O lago. A ponte. Bebi até os ônibus começarem a passar.

Ainda detesto aquele silêncio.