02 outubro 2009

"com deus não me deito
e nem me levanto
mas com a virgem maria
seria uma noite e tanto"
Mário Prata

12 setembro 2009

Detesto o silêncio

Não o silêncio do meu quarto, mas sim o silêncio entre duas pessoas.

Naquela noite, tínhamos ido ao teatro. Ela, como sempre, foi crítica até demais: achou a iluminação ruim e a acústica mal implementada. Eu achei legal. A atriz principal interpretava Elektra filha de Agamênon, e tinha uma voz levemente fanhosa. Coisa besta, que quase ninguém deve ter percebido (talvez pela acústica ruim), mas eu percebi. E imaginei a Elektra de verdade - se houver existido uma - sofrendo com problemas de dicção. Ri disso. Ela não entendeu o motivo do meu humor. Fechou a cara e recomeçou a criticar a iluminação.

De lá passamos num supermercado pra comprar bebida. Ela dirigia e isso sempre me deixou incomodado - o fato de depender do carro dela para saírmos. Acho que é uma das atitudes ditas provincianas que eu não conseguia largar. Mal dos homens do interior. Por isso eu fazia questão de pagar suas coisas. O ingresso do teatro, a conta do jantar e a garrafa da vodka com frutas. Poderíamos beber ali no estacionamento, mas com a lei seca os polícias de Brasília andavam rondando esses locais exatamente com a intenção de flagrar motoristas bebendo pra multá-los logo adiante; por isso fomos pro mirante. E no carro mais uma vez: silêncio.

Descemos a pista do mirante ao lado da ponte, ela estacionou no gramado onde antes havia um carrinho de cachorro quente. Descemos do carro, eu com a garrafa na mão e ela com um casaco, braços cruzados bem apertados contra o peito. Resolvi quebrar aquele gelo:

- acho que vai chover. olhei para o céu - nublado, mas sem sinal de chuva.

- acho que a gente tem que beber. ela me disse e se aproximou de mim, passando o braço pelo meu, me trazendo para perto.

Sentamos na grama e eu pelejei para abrir a garrafa. Uma, duas, três tentativas. Mais uma surra no meu ego masculino, e como de costume xinguei alguma coisa. Ela riu. E eu abri a garrafa, passei pra ela e fiquei torcendo minha mão direita. Gole curto. Careta. Gole longo.

- o lago a noite é lindo. me lembra o mar.

- é. (ela tinha me passado a garrafa)

- e se tiver greve?

- se tiver greve eu vou pra casa. que se foda o estágio.

ela torceu o nariz. eu havia comentado sobre o estágio, mas não sobre ela. sobre nós. Ficamos em silêncio mais uma vez.

- Detesto o silêncio... Esses silêncios que incomodam. Sabe como você sabe quando tem uma pessoa pra vida toda? Quando você pode ficar em silêncio com ela por quarenta minutos inteiros e não se incomodar com isso.

- isso é do Tarantino? (ela perguntou depois de eu tê-la devolvido a garrafa).

- Tarantino. Sim.

- você tá ficando bobo com esses filmes... (me devolve a garrafa sem beber).

Eu bebo. Mais pela frustração do que por vontade. Enquanto estou bebendo não tenho que falar. E agora, algum tempo depois, posso pensar direito sobre o ocorrido. Eu já tinha perdido. Ela já não queria mais.


Passei a garrafa.

Aproximei pra beijá-la - nós homens tentamos às vezes corrigir certas coisas com beijo ou sexo, algumas delas detestam isso.

Ela afastou o rosto.

- eu quero ir embora... nem me olhou quando disse.

- eu quero ficar.

olhava pro lago. e pior do que o silêncio, é o gosto da frustração. Aquela frustração que senti quando ela se levantou sem me dizer uma única palavra, entrou no carro e se foi. Mais uma vez, silêncio. Ela não estava lá, mas o silêncio entre nós havia ficado. Pelo menos restava a garrafa. Vodka e frutas vermelhas. O lago. A ponte. Bebi até os ônibus começarem a passar.

Ainda detesto aquele silêncio.

11 agosto 2009

História Curtíssima


Era a terceira atriz com quem eu havia ficado junto em menos de um ano. Não sei exatamente o que é, não procuro conscientemente esse tipo de mulher, mas pensando melhor vejo que se todas passam a vida fingindo, é melhor que eu esteja pelo menos com alguém que seja convincente. Estávamos juntos há tempo suficiente para ela conhecer minhas manias e suportar minhas ausências; era o que poderíamos chamar de relação estável: e isso me agradava incrivelmente. Tanto que cheguei a ponto de comprar uma aliança - de ouro - e queria pedi-la em noivado. A idéia do casamento não passava pela minha cabeça, com o dinheiro da bolsa do mestrado eu mal conseguia pagar as contas, eu já não vendia uma história há um bom tempo, mas já vínhamos morando juntos há dois meses e o noivado era uma das melhores formas de regularizar a situação para com a família dela, extremamente tradicionalista.

Ela iria estrear naquele dia uma peça de um filósofo francês vesgo que em meados do século XX se metera a dramaturgo; e naquele dia durante o café da manhã Carolina - esse era o seu nome - era toda "mon amour", "la colline des roses" e "Je déteste les mois de décembre". Sorria bastante e parecia animada quando eu saí de casa e a deixei recitando as suas falas e decorando as cenas, e quando lhe dei um beijo e descia as escadas fiquei sentindo o cheiro do protetor solar dela que me impregnou.

Naquela noite, sentei-me na terceira fileira e enquanto a cortina ainda estava baixa prendi minha atenção na plateia - ou na falta dela, porque poucas pessoas haviam se interessado pela peça e aquela sala de teatro no setor de autarquias norte estava realmente entregue "às moscas". Havia alguns senhores de idade espalhados pela platéia e uma única família composta provavelmente por mãe, pai e filho e o menino não parava de reclamar dizendo que preferia estar em casa. Logo as luzes se apagaram e a cortina subiu, e ainda na primeira parte pude ver Carolina ajoelhada num cenário que imitava uma ruela suja, estava se lamuriando por algo que não pude entender.

O primeiro ato foi extremamente ruim e eu esperava que a peça melhorasse nos que viriam a seguir. Ela havia atuado muitíssimo mal, porque dava pra ver que o choro era extremamente forçado assim como o falso sotaque francês e isso me deixava irritado - eu sabia que ela era melhor do que aquilo. Por isso, cheguei a conclusão de que era proposital, mas por que diabos ela estava agindo assim?

Acho que comecei a cochilar, mas não tenho certeza porque meu estômago doía tanto naquele dia que duvido que eu tenha realmente pegado no sono e um senhor idoso vestido com roupas bastante antiquadas se postou do meu lado e chamou meu nome duas vezes. Vi que ele tinha um frio sorriso com uma cortesia distante, e logo que eu parecia recuperado do atordoamento que sofremos ao sermos despertados, ele me disse para acompanhá-lo até os bastidores. Segui por trás da cortina lateral e vadeei pela penumbra, quase tropeçando em um algo coberto por um forro branco ou um lençol, parei onde me ordenaram e aquele senhor com as roupas antiquadas me deu algo envolto num pano, pedindo que eu segurasse. Fiquei assim por alguns minutos, meio que tentando acostumar os olhos com a escuridão e quando finalmente consegui, notei que estava num palco, onde haviam móveis figurando um cenário que não pude reconhecer como sendo da peça.

Repentinamente uma cortina subiu ao meu lado e as luzes fortes dos refletores fizeram meus olhos doerem, e mais uma vez demorei a me acostumar com o ambiente. O que me chamou atenção naquilo foram os aplausos, então eu me dei conta de que estava realmente num palco. Os aplausos começaram fortes e foram morrendo aos poucos, a medida que alguém irrompia uma gargalhada ao meu lado então eu pude olhar abismado para as cadeiras vazias - quem estava aplaudindo então?

Ainda confuso, notei que as gargalhadas continuaram, então pude ver que a coisa coberta que eu quase tropeçara eram duas pessoas deitadas no que parecia uma cama baixa e cobertas com um lençol branco, (...)

12 abril 2009

FOME


porque Clarice é um abismo
por falta de tato ou cismo.
que consome o que encontra

vagueia no canto a esmo.
por falta de alma nem mesmo
pode ver o que afronta

No fim veio a cocaína
e nos pulsos lâmina fina.
Não vem medo nem aflição

porque Clarice é um abismo e

até parecia que era minha aquela solidão.

01 abril 2009

A PASSARELA



"É necessário saber dissimular com as pessoas que têm vergonha de seus sentimentos; concebem um ódio repentino pela pessoa que as apanha em flagrante delito de ternura, de entusiasmo ou de nobreza como se seu santuário secreto tivesse sido violado.
Se quereis ser-lhes benéfico nesse momento, fazei-as rir ou tratai de lhes sugerir, brincando, alguma fria maldade: seu humor gela e dominan-se.
Mas enfim, a moral é dada sem que eu conte a estória...
Estivemos, certa feita, tão próximos um do outro que nada parecia entravar nossa amizade e entre nós parecia haver somente uma pequena passarela a transpor. Exatamente no momento em que ias repousar o pé, perguntei-te: 'Queres passar a vir ter comigo?', mas nessa altura não quisestes e quando insisti, calaste. Entre nós lançaram-se, a partir de então, montes e rios, tudo que separa e torna estranho um ao outro, de modo que nunca poderíamos nos juntar novamente, inda que desejássemos!
Mas quando hoje sonhas com a pequena passarela que havia, nada encontras pra dizer... só te nascem soluços e aturdimentos."




Texto retirado de A Gaia Ciência, Tópico 16, Livro I, de F. Nietzsche