Ustedes saben señores muy bien como es esto.
Lá fora uma chuva diluviana caía fazendo com que só os mais temerários se arriscassem a enfrentá-la. Até aquele velho cachorro de rua buscou abrigo na entrada da garagem do prédio, e olhando pela janela entreaberta ele tinha uma sensação de estarem em um abrigo seguro, sendo que o prédio de ferro e concreto não cederia um milímetro sequer por mais forte que fosse a tempestade. Distraiu-se tanto com a chuva que mal se lembrava da pessoa que estava sentada a sua frente, observando-o com certa calma desprovida de sinceridade, porque a verdade é que estava tão impaciente que mal continha seus dedos tamborilando sobre a perna. A moça acabou chamando a atenção do semi-inconsciente com um longo suspiro. "Não vai estiar tão cedo. Talvez você tenha que dormir aqui", ela disse quando percebeu que ele havia ficado constrangido pelo longo silêncio mantido entre os dois.
A sala onde estavam não demonstrava nenhum luxo, e talvez até acusasse a situação de alguém que mora sozinha há algum tempo. As paredes muito brancas não ostentavam nenhum quadro ou fotografia, só um pôster velho com o rosto de Ernesto Che Guevara. Sobre uma mesa de madeira muito nova estavam uma dúzia de livros de diversos assuntos, entre eles astrologia, história do Brasil e um livro do Michel Foucault, entre outros. A única coisa da casa que mostrava certa sobriedade naquele dia saturado de nostalgia era o rosto da própria moradora, embora ela também se vestisse de forma exótica, não muito distante da aleatoriedade do resto do apartamento. Tinha os cabelos castanhos presos num coque comum, usava um casaquinho de lã e uma saia que lhe caía até logo abaixo dos joelhos, porém ele a achou extremamente atraente daquele jeito e naquele dia; sendo que já começava a sentir os calores de uma paixão que há poucos minutos antes parecia tão morta quanto a vontade de estar ali. Quis arriscar um elogio, mas o transtorno do silêncio ainda superava a vontade de falar naquele instante. Acabou dizendo com uma expressão bastante debochada:
- Não faz mal, não é a primeira vez que eu tenho que dormir aqui.
Ela retribuiu o comentário com um sorriso cúmplice, como quem recorda de uma travessura feita em um passado não muito distante. Levantou da cadeira onde estava sentada ainda sorrindo e foi em direção a cozinha, murmurando algo sobre fazer um chá para os dois. Ele se levantou ainda sem dizer nada, pegou um dos livros sobre a mesa e começou a passar os olhos sobre uma página qualquer, enquanto pensava sobre o que fazer naquela situação totalmente imposta pelo destino. Viera ao encontro dela exatamente para confessar que já não tinha vontade alguma de estar junto dela e que ela devia se sentir livre do senso de dever que tinha para com ele. A coisa foi totalmente o contrário: assim que chegou ao apartamento junto com os anúncios do dilúvio tentou evitar o assunto diretamente, dando rodeios e comentado sobre alguns amigos em comum que tinham. Agora ele estava ali, sentindo-se a vontade para mais uma tentativa. Com um pequeno gosto de auto-repreensão na boca por estar sujeito a possibilidade de só estar cedendo por pura luxúria. Quando conseguiu sufocar aquele empecilho, deixou o livro aberto sobre a mesa e foi até a pequena cozinha do apartamento com passo firme e a abraçou por trás, envolvendo seus braços pela cintura dela.
Duas horas depois, quando ela jazia adormecida ao seu lado ele se sentia o mais miserável entre os miseráveis. Ela dormira agarrada a um de seus braços, como uma criança que procura por segurança e a ausência de carinho que ele sentia naquele instante rasgava suas entranhas por dentro. A voz da culpa, aquela mesma que anunciava a luxúria algumas horas antes o castigava e o impedia de olhar para o rosto adormecido dela. Devagar e sem fazer barulho, soltou seu braço, se levantou, vestiu suas roupas ainda sem olhar para a moça nua que ainda dormia, forçando-se a encarar a tempestade pelo vidro da janela. Apanhou uma caneta e escreveu na contracapa do livro de Foucault (que fora um presente dele): "Eu não te amo. Me perdoe. Vá encontrar alguém que te mereça e não me procure mais." e depois deixou-o aberto ao lado da cama.
Saiu do prédio encolhido, olhando para o céu que não cederia naquele instante, nem no dia seguinte, enquanto verificava se não esquecera nada. Caminhou até a saída da garagem onde o cachorro ainda estava abrigado e naquele instante se sentiu mais desaventurado do que o animal: tinha consigo a certeza de que nunca amara ninguém. De que ele, ou as pessoas como um todo, buscavam por uma ilusão fugaz e que o mundo viveria bem melhor sem amor. Que aquela moça que dormia num quarto de apartamento do segundo andar viveria bem melhor se nunca tivesse acreditado que o amava. Tomou coragem e enfrentou a chuva naquele dia molhou toda a sua alma.
15 novembro 2008
24 agosto 2008

Episódio do Inimigo
" Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tantoanômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.
Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:
- A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos - disse - porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.
Enquanto eu falava, ele favia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.
Disse-me, então, com sua voz firme:
- Para entrar na sua casa, recorri à sua compaixão. Tenho-o agora a minha mercê, e não sou misericordioso.
Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte, e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:
- É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.
- Precisamente porque já não sou aquela criança - replicou - é que tenho que matá-lo. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.
- Posso fazer uma coisa - respondi.
- Qual?
- Acordar.
E assim o fiz. "
Jorge Luís Borges, O Livro dos Sonhos.
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DesenContos
21 agosto 2008
Madrugada, 21 de agosto.
Ausência completa do sono. In Sônia.
Gritaria, choro. Colo, café.
Estática espiritual e sentimental.
Eu deveria ser menos ríspido. Não deveria ser tão irônico.
Eu deveria demonstrar mais carinho. Não deveria me fechar tanto.
Eu deveria decidir minha vida. Não deveria depender de decisões alheias.
Eu deveria... Deveria.
Fico devendo. Na próxima vida eu pago.
Quando se escuta uma música repetidamente e ela parece ser tocada mais lentamente a cada vez, ou alguém lhe está pregando uma peça ou você está bêbado.
Nothing is real.
A vontade de tomar as rédeas da própria vida é algo natural do ser humano.
Guiar os cavalos do tempo pra direção que lhe parecer conveniente.
Acontece que mesmo assim, quem dita pra onde vamos é a própria estrada.
Acontece que mesmo assim, quem dita pra onde vamos é a própria estrada.
'cause i'm going to strawberry fields. nothing is real.
Você não guia os cavalos de um carrossel.
O carrossel gira gira e nunca te leva a lugar algum.
Não gosto do carrossel. Andei poucas vezes na vida.
Gosto da Roda Gigante. Também não te leva a lugar algum, mas lá pelo menos é alto. A solidão que se sente contemplando o mundo de cima, míseros metros acima, é algo fantástico. Depois gira, gira, você desce e fica se lembrando da sensação. Pode ter subido só uma vez na vida, você nunca esquece. Nunca.
Meia noite e meia. Sem café.
Let me take you down 'cause i'm going to strawberry fields. nothing is real.
Certas coisas que nos fizeram marcam o resto de nossa vida.
Certas coisas que fizemos marcam o resto da vida de outros.
Tipo aquele amigo que bebeu pra comemorar o aniversário de outro, dirigiu e bateu o carro. Todos morreram. Juntos e bêbados. Eram tão novos.
Houve congestionamento. Pessoas chegaram tarde em casa.
Praguejaram contra os malditos imprudentes. Imprudentes malditos. Cidade maldita.
Se ao menos não tivessem bebido. Todos chegariam cedo em casa. Haveria música. Alegria.
Let me take you down 'cause i'm going to strawberry fields. nothing is real.
O café e a gastrite são amantes pontuais. Se quiser se encontrar com ela arranje um pouco dele.
Prepare-o bem forte. Bem quente. Sem açúcar. Beba em longas sorvidas.
Aquece sua alma, alerta sua mente e acorda seu corpo.
E você tem que se apresentar pro seu chefe amanhã.
E também para uma turma de quarenta estranhos. Quarenta estranhos olhando pra você.
"Ele tem o cabelo bagunçado. Barba por fazer. Olheiras enormes. Espinhas no rosto. Não é muito mais velho do que eu".
Mas só a clareza de mente pode te mostrar que é tudo besteira.
Idade, verdade, realidade.
Tudo uma grande besteira. Inclusive esse texto.
Irreal do início ao fim. Uma grande mentira. Uma mentira bem longa contada pra seduzir o sono.
Eis que chegou. Bem vindo, amigo. Estava a sua espera.
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever
20 agosto 2008
Let me take you down
because i'm going to
strawberry fields
Nothing is real
strawberry fields forever.
Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
it´s getting hard to be someone
But it all works out
it doesn't matter much to me
No one I think is in my tree
I mean it must be high or low
That I you can't you know tune in
but it's all right
That is I think it's not too bad
Always, no, sometimes, think it's me
But you know I know when it's a dream
I think, no I mean.
But it's all so wrong
That is I think I disagree
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