17 agosto 2008

Que angústia! Que vontade louca de chorar!
Vontade frequente. Vem me visitar ultimamente.
No ônibus de volta pra casa, a noite contemplando o firmamento, deitado pensando nas mesmas coisas que pensava há alguns meses.Fiquei anos sem chorar. Sem sentir a mínima vontade. Era uma pedra. Sólido e firme. Por dentro e por fora. Hoje de manhã senti como se a minha antiga firmeza interior tivesse se transformado em algo etéreo. Como se tivesse a consistência de um vinho. Talvez tenha anteriormente ficado flácida, amolecendo aos poucos. Talvez a carne também tenha deixado de ser rija. E me vejo velho. Velho e perplexo de frente a um espelho.Como um velho prédio que há tempos não é reformado. Caio aos poucos. Telhado, acabamento, reboco. Tudo cai.
Besteira. Não estou velho. Não externamente. Ainda vou demorar uns anos pra envelhecer de verdade, e talvez até morra jovem e nunca venha a contemplar a velhice. Mas estou vivo. Hoje estou vivo. Sei disso porque sinto dentro de mim uma vontade constante de chorar que vem me visitar quando estou sozinho olhando o firmamento. E é essa vontade, minha companheira, que hoje faz com que eu vomite essas palavras sem pensar exatamente nos seus efeitos.
Me sinto pedra denovo. Me sinto firme por dentro. Mato lentamente a minha companheira, como se brincasse com ela. Como se a sufocasse com minhas duas mãos, e esse ato trouxesse de volta a antiga firmeza da minha carne e do meu espírito. Dou um longo suspiro, aliviado.
Acabou.

15 agosto 2008

Collor está preocupado com o País.
.
JORNAL DO SENADO
ANO XIV - Nº 2.859 - Brasília, quinta feira,
14 de agosto de 2008

página 8

Trecho da matéria:
"Collor: crise boliviana pode prejudicar o Brasil"


"(...)
O senador FERNANDO COLLOR (PTB- Al) disse estar preocupado com o arco de instabilidade que cerca o Brasil na América do Sul, e ainda com a manipulada disseminação de sentimentos antibrasileiros na região. "


Fernando Collor de Mello. Senador. Ex presidente da república
O primeiro presidente da república eleito por votos diretos após mais de vinte anos de ditadura militar no país. Presidente esse que teve seus direitos políticos cassados por oito anos. Hoje, senador da república pelo estado de Alagoas.
O Mandato de Senador dura oito anos.

Me lembro do Collor, eu era criancinha.
Ele aparecia na TV com um terno, um penteado bonito e falava muito.
Falava pro povo que tudo ficaria bem.
Era um cara carismático. Novo demais pra um presidente da república.

Depois me lembro de outro período. Todo mundo falava mal do Collor. Meu pai indignado com ele por algum motivo. Meu pai indignado com o presidente jovem, antagonista da velhice reumática do Figueiredo, ou do Castello Branco. Encarnação do futuro do país. Um cabelo legal, roupas caras e um sorriso branco, descarado. O presidente que reverberou confiança em todo um povo.


Povo besta. Confia em qualquer um.
Os cofres públicos pagam até hoje parte dos rombos que a gestão Collor deixou no país.
Flagraram pessoas da cúpula do então presidente em uma festa particular que acontecia num apartamento em Nova Iorque, comprado com dinheiro do povo.

Hoje Collor é senador. E diz estar preocupado.
Com qualquer coisa. Pode ser ignorância. Pode ser falta de conhecimento de causa. Mas não confiaria no Fernando Collor nem pra administrar a caixa registradora do Centro Acadêmico do meu curso. É um instinto que me deixa com uma pulga atrás da orelha.

Concluindo precocemente meu raciocínio, certa vez me disseram que o povo tem o governante que merece. E o governante gera o povo que precisa.

Faço parte do povo, portanto também tenho o que mereço.

10 agosto 2008

I'm a Believer.

Era um anfiteatro grande, como um daqueles que ele conhecera na faculdade. As únicas diferenças eram que ao invés de um quadro negro havia um palco, e ao invés de um velho estrangeiro ministrando uma aula imersa numa das tramas do sono, ele mesmo tomava parte de um grupo de músicos que se apresentavam para uma turma não muito entusiasmada.

Era uma situação embaraçosa, ele não fazia a mínima idéia de como havia parado ali e agora se encontrava com um contra-baixo nas mãos, tocando melodias que não conhecia e que mesmo sendo executadas na hora não lhe davam prazer. Que sensação incômoda! Fazer algo que não gosta por um motivo que desconhece! Mas um estranho senso de responsabilidade esperneava dentro de suas entranhas, dando-lhe calma suficiente para não abandonar tudo, justamente como acontece com quem espera sentado pelo trágico fim. Nesse instante ela entrou na sala.

Tinha os cabelos soltos caidos pelos ombros e segurava firme alguns livros contra o corpo, envolvendo-os com os dois braços. Caminhou até onde pudesse ser vista e ficou de pé em frente ao palco, olhando fixamente para ele. Aquele olhar fez com que todo o corpo dele estremecesse, por dentro e por fora, e ele não conseguiu mais tirar os olhos dela. Errava as notas sem nem ao menos se importar, continuava tocando apenas pelo já dito senso de responsabilidade. Mas aqueles olhos... Não era paixão que estava transmitida. Era uma pontinha de dor. Era também uma pontinha de satisfação por estarem se vendo ali e ao mesmo tempo era a forma que ela conseguira pra lhe contar tudo que desejeva contar sem precisar realmente das palavras.
Aquela situação durou um pouco mais de dois minutos, talvez, e então ela desviou os olhos e saiu pela mesma porta que entrara. Ele sentiu um enorme desespero com tudo isso, e sua ansiedade o impedia até mesmo de se manter de pé. O peso do instrumento aumentava a cada instante que se passava e depois de mais algum tempo, quando tocaram o último acorde ele soltou o baixo e saltou do palco, refazendo os passos da moça até a porta. Lá dera de cara com um grande corredor muito bem iluminado, porém vazio.

...

Acordou no banco de trás de um carro numa rodovia que conhecia muito bem. Seu rosto estava pressionado contra o vidro e o sol do meio da tarde deixara sua pele ardendo. Uma música dos Monkees tocava naquele instante, I'm a Believer. Era a segunda vez que ele tinha aquele sonho e agora sentia-se como saindo de um conto do Jorge Luis Borges. Ele a perdera. Pela segunda vez.

30 outubro 2007

A vida é cheia de desventuras.
E por uma dessas que acontecem quando menos esperamos, dia desses eu acabei pisando nos meus óculos.
Sim. Foi falta de atenção. Sempre deixo os óculos do lado da cama, e exatamente nesse dia, fui abrir a janela e... ah! M-E-R-D-A!
Aconteceu assim, por simples descuido.
Uma das pernas ficou torta. O suporte para o nariz ficou mais junto do que devia.
Tentei colocar no rosto.
Fui até o espelho com uma ponta de esperança: Nada mudou. Nada mudou.
Porém, meus óculos já não eram a mesma coisa em mim.
Já não me caíam bem no rosto. O lado esquerdo estava mais inclinado do que o direito e eu agredia a armação apertando o suporte. E ele pra mim, parecia gritar não aguentando a pressão. Não. Definitivamente... não tinha mais jeito.
Tentei consertar. Afinal, óculos torto é o ícone da desilusão: o que parecia justo pra você, agora não lhe cabe mais. Por um simples descuido. De uma hora pra outra.

Empurra daqui, aperta dali, gira parafuso.
Nada. Outro eu não quero. Nunca. Isso seria traíção.
Talvez se eu tentasse pressionar um pouco mais.
Talvez ele poderia se quebrar.
Deixo estar. Levo um dia na ótica.
Mas mesmo quando ele voltar alinhado denovo, dentro de mim eu terei a certeza de que não é a mesma coisa.
Óculos quando se quebra uma vez, perde o encanto da perfeição.
Talvez seja isso... Só se conformar.
Talvez comprar uma armação nova e me esquecer da velha.
Vai ver é isso. Acho que é isso que as pessoas acabam fazendo.
Cansei de andar na contra-mão.

24 outubro 2007

Perdido nas Palavras

Certa vez me perguntaram se eu conhecia Fernando de Noronha. Não. Não, minha senhora.
Dos Fernandos, só conheço o Pessoa. E mesmo desse dito cujo, conheço pouco, porque nunca li muito.
Também não conheço Búzios. Exceto os da Madame Alzira. Que também joga Tarot e traz a pessoa amada nas suas mãos.
Nem muito menos conheço o Cabo Frio. Apenas conheço o Cabo de Guerra. Jogo infantil que eu brinco sempre com minha prima.
Ai de mim, que fui nascer num país com tantos balneáreos.
E ai de mim, que fui nascer logo longe de todos estes.
Nunca, em toda a minha vida, eu quis ser um peixe.
Desses peixes de nadadeira dorsal e opérculo a tampar-lhes as guelras.
Nunca quis.
Nem também quis ser surfista. E falar gírias como "Broto", "Bicho" e "Brother" (que aliás, começam todas com a letra "B". Serão os surfistas poetas da língua do "B"?).
Nem quis sentir a areia entre os meus dedos.
Nem as ondas a bater em minhas canelas.
Nunca. Nunquinha.
Desta vida de Exilado Marinho, restou-me apenas ser poeta.

E que eu me dê por satisfeito.