29 maio 2014

vaga-mundo

Vago, divago, translado
Mas a procura de quê,
meu deus?

08 maio 2014

Vinícius ao contrário

Sinto-me um Vinícius ao contrário:

De manhã anoiteço,
De tarde amanheço,
De noite padeço.

Sempre defasado
do meu tempo
Atado
a um passado
que já foi.

19 novembro 2013

(setor de diversões sul, DF)


i

(instituto central de ciências, UnB, DF)

ii

Já faz tanto tempo! 

O Vinícius era um aluno totalmente regular. Regular, acho que essa é a palavra exata. Notas regulares, interesse regular, desempenho regular. Fui sua orientadora no programa de educação tutorial em 2007. Era esforçado, parece que usava a bolsa para ajudar em casa. As vezes gostava de vagabundear no Café das Letras, ali perto do restaurante, sabe? Eu o via frequentemente ali junto de um tipinho esquisito... Bem, nada suspeito, se o senhor me entende. Por outro lado era um rapaz muito esforçado. Veio do interior e morava no entorno. Valparaíso, eu acho. Não... não tenho certeza se ainda morava com a mãe nos últimos dias. Eu perdi o contato quando a vigência da bolsa dele acabou. Trabalhávamos com tradição oral nas tribos paetés...

Sim. Ele sempre quis ser escritor... pelo menos é o que dizia.

Vez ou outra me mostrava uns textos, coisa boba, mas forte. Vibrante. De jovem. Cometia alguns erros de português, mas se o Alquimista faz e vende assim mesmo, não era por isso que eu iria desincentivá-lo, certo? Ele chegou a publicar um texto nesses pasquins de rodoviária. Dessas revistas que vendem por três reais. Elas sobrevivem mais de contrato com anunciantes do que do dinheiro pago pela tiragem. Não, não cheguei a ler o conto do rapaz. Naquela época a universidade estava de cabeça pra baixo, um alvoroço!

Isso. Foi exatamente na época da invasão da reitoria, da deposição do Thomas Holland, pobre coitado. Só era mal assessorado, cercado de mandriões. Pagou o pato. Aliás, pagou a lixeira (risos). Pagou com a credibilidade e a carreira. Dentro da classe docente há bastante gente que o apoia até hoje. Ele era inocente, com toda a certeza.

Sim senhor, exatamente. O Vinícius participou do movimento que invadiu a reitoria. Parece que chegou a edormir lá por lá vários dias. Meus conselhos não adiantaram de nada. E Essa universidade é um pandemônio, o senhor pode perceber. Dão voz a qualquer um, falta um comando. Deu no que deu, veja quem temos hoje aí comandando! (risos)

Qual o interesse mesmo? Sim... compreendo. Eu já imaginava. Soube que ele havia caído do prédio do shopping, mas não sabia que havia a suspeita de crime. E as câmeras, nada? Não funcionavam então? Que absurdo! Mas por que matariam um rapaz tão jovem? Bom, que eu saiba ele não se envolvia com drogas. Mas parece que nos últimos anos ele frequentava o centro acadêmico de geologia. Sim, no bloco B, aqui de frente. Não, não tenho como provar nada, mas há boatos, sabe? São todos vagabundos, eles, os da agronomia, biologia. Péssima influência.

Qualquer novidade o senhor pode me contactar. Isso, Olga Fleury. Éfe érre ê u érre ípsilon. Doutora, sim. Na Sorbonne. Na mesma época do Príncipe dos Sociólogos (risos). FHC, claro!

Professora Dra. Olga Fleury,
Lali. UnB.
Setembro de 2009.
novembro de 2009

viagem de carro,
quase acidente,
 quase morte,
 posto de gasolina,
raiva,
 fome,
garçonete linda,
 relacionamento,
 esperança,
final de semana,
 viagem de volta,
 rompimento,
 acidente na mesma curva com o mesmo carro,
 morte.

17 novembro 2013

História de família.

O texto que se segue contém natureza puramente pessoal, e foi escrito com a intenção de registrar os fatos colhidos sobre a família do meu pai desde a minha adolescência.

João Ferreira da Silva nasceu na última década do século XIX, no então distrito de Inconfidência (hoje cidade de Coração de Jesus, no Norte de Minas Gerais). Sabe-se que era mulato. Desconhece-se o nome dos seus pais. Aos 13 anos de idade, órfão de pai, sua mãe casou-se pela segunda vez. João, que não gostava do padrasto, fugiu e juntou-se a uma "baianada" (nome dado ao grupo migratório de nordestinos que partiam em direção ao sul do país). 
Aparentemente caminharam durante alguns meses até passarem pelo município de Paracatu do Príncipe. João contraiu sezão (malária) durante a travessia do sertão do médio São Francisco, e foi deixado aos cuidados de um boticário (de nome desconhecido); que o apadrinhou. A baianada seguiu para o sul. João ficou na cidade de Paracatu. Embora tivesse nascido em Minas Gerais, ganhou a alcunha de João Baiano devido à forma como chegou a cidade.
Aos dezoito anos conseguiu através do padrinho um emprego de capataz na fazenda da viúva de Epifânio de Oliveira Barreiros, próximo a região da Serra das Antas, à noroeste da cidade de Paracatu. A viúva chamava-se Maria e tinha uma filha chamada Júlia de Oliveira Barreiros, de idade próxima a de João.
Não se sabe quando aconteceu, mas João casou-se com Júlia, e tornou-se dono da fazenda. O casal teve sete filhos, dentre os quais Salviana Ferreira da Silva foi a primogênita (hoje ela tem 103 anos). Não se sabe o motivo de os filhos terem sido registrados somente com o sobrenome do pai, visto que a família Oliveira Barreiros possuía certo renome na cidade, sendo conhecidos pela sina de tragédia da família e pela aparente "loucura" exacerbada por diversas gerações de casamentos consanguíneos entre primos próximos (hoje sabe-se que provavelmente tratava-se de transtorno bipolar, como será dito adiante).
O nome dos dois filhos homens era Geraldo F. S. e Joaquim F. S.
Geraldo, que nascera em agosto de 1927, saiu de casa aos 15 anos de idade após uma briga com o pai, tendo pedido ao pai parte de sua herança antecipada, o que lhe foi concedido. Não se sabe a quantia exata na época, porém Geraldo alegava ter gasto com jogo e mulheres. Sabe-se que ele tentou a sorte na região de Santa Luzia e São Sebastião dos Cristais (hoje Luziânia e Cristalina, Goiás). Nessa época andava com um revólver a tira-colo, Quando o dinheiro acabou, trabalhou em garimpo de cristais. Soube da notícia do adoecimento do pai (possivelmente recaída da malária mal curada) e regressou a Paracatu. Alega ter cuidado do pai (com 17 na época, quase todos os seus irmãos já haviam se casado, sendo os demais muito jovens). João tinha pouco mais de 50 anos. Geraldo voltou a morar com os pais e a cuidar da fazenda. Nessa época começou a ser conhecido como Geraldo Baiano, devido à alcunha do pai.
Em algum ano entre 1934 e 1940, dona Júlia Barreiros Ferreira faleceu devido a complicações na frágil saúde. Durante esse mesmo período, Geraldo Baiano quase matou um rapaz que pisara repetidas vezes no seu pé em um baile, por ciúme da parceira de dança. Depois desse incidente, o mesmo jurou nunca mais dançar e nem andar armado. Aprendeu então a tocar em serestas e bailes, que não deixou de frequentar - só de dançar. Tocava acordeon e violão (hábito que manteve até o final da vida).
No ano de 1950, conheceu a jóvem Célia Leite, filha de Joaquim Leite e Amelia Gotlib (filha de Gaspar Gotlib, alemão). Célia tinha então 13 anos de idade, 10 anos mais nova que Geraldo. Este, encantado com a beleza da moça, pediu a mão ao pai, prometendo que dentro de um ano eles se casariam (assim que a moça completasse 14 anos).
Durante este ano, ainda assombrado com as histórias de garimpo e riqueza que ouviu nas cidades de Santa Luzia e São Sebastião, vagou o noroeste mineiro procurando alguma terra que tivesse qualquer indício de riqueza no sub-solo. Geraldo encontrou terras para comprar na região conhecida como Aldeia, há 80 km a norte da cidade, em direção a Capim Branco (hoje Unaí). Aquela região fora uma Aldeia indígena em tempos remotos (Tronco Tupi) e ainda hoje pode-se ver buracos circulares no chão onde os mesmos realizavam suas cerimônias religiosas. Convenceu o pai a vender as terras na Serra das Antas e comprou 500 alqueires de terras entre o "Cabavida" e o ribeirão d'Aldeia. Jurou a vida inteira que a noite podia ver uma luz branca faiscante no meio da Serra, em frente a casa. Julgou que fosse alguma gema minério. Infelizmente, estava errado.
Realizada a transação, Geraldo Baiano regressou a casa de Joaquim Leite e desposou Célia, que passou a se chamar Célia Leite Ferreira. Após o casamento Geraldo contratou um avião monomotor para cuidar do translado da jovem Célia e do idoso João Baiano até a nova casa, enquanto ele ia por terra transportando o gado e os pertences de maior porte. O avião era um monomotor da década de 1940, que atingia velocidades de até 190 km/h. Estima-se que a viagem aérea tenha durado menos de 25 minutos, enquanto Geraldo demorou dois dias para chegar com o gado e os pertences. O ano da mudança foi 1951. Joaquim Baiano tinha então em torno de 60 anos e tinha a saúde bem debilitada.
A primeira filha nasceu no ano de 1952, recebeu o nome Iris do Carmo Ferreira da Silva. Iris nasceu com os cabelos dourados e olhos claros (ascendência teutônica da mãe). Por tal motivo, Geraldo Baiano a chamava de dama de ouros (carta do baralho português, ou barulho "comum" no brasil). No jogo de truco para seis pessoas, a primeira e mais importante carta do baralho é a dama de ouros, sendo portanto que para Geraldo aquilo era um elogio. 
João Baiano faleceu em sua cama entre no ano de 1954. O mesmo costumava a se levantar antes do nascer do sol e sempre que a saúde permitia, ia ajudar o filho na lida com o curral ou com o plantio. Geraldo Baiano enterrou o pai nos pés da Serra Cabavida, em baixo de uma castanheira de Baru. A árvore poderia ser avistada da janela oeste da casa, porém Geraldo iniciou naquele ano um plantio de cana-de-açúcar que cultivava alta, e cobria a visão da castanheira.
O primeiro filho homem do casal recebeu o nome do avô: João Ferreira da Silva. Este não se parecia fisicamente, pois nasceu claro, com os olhos muito verdes. Os demais filhos homens foram chamados de Antonio Marcos F. S. e Benedito Geraldo F. S. (filho caçula). Ao todo, foram 11 filhos (8 mulheres e 3 homens). Geraldo contraiu mal de chagas muito cedo, com pouco mais de 30 anos. E devido a descoberta da doença, passou a vida tomando remédios. Mais tarde, descobriu-se também que ele tinha transtorno bipolar, doença que provavelmente herdou da família materna. Isso explicava as oscilações de humor e ânimo que sofreu durante os anos após a morte do pai.
Geraldo Baiano construiu o primeiro Grupo Escolar da região da Aldeia de Cima (neste instante, já território do município de Unaí). O fez sem auxílio da prefeitura. Uma de suas filhas, Benedita, foi a professora deste grupo por muitos anos, mesmo quando o mesmo foi integrado pela rede municipal de educação.
Geraldo foi um pai atencioso e um bom avô: gostava de contar histórias para os netos e a ensinar as rezas e tradições da igreja católica. Nos dias mais animados, tocava violão pela manhã e ensinava aos netos a cuidar do gado e a ordenhar. 
Célia e Geraldo Baiano (1984). No fundo, encosta da Serra do Cabavida.

Geraldo era meu avô e faleceu aos 77 anos em 9 de setembro de 2004. Esta é a síntese da história da família de meu pai, Antonio Marcos F. S., e ambienta boa parte da minha infância na fazenda da família, pela qual sou muito grato. Conhecer a história por trás de cada elemento presente na convivência familiar ajuda a explicar muita coisa, inclusive a sua forma de pensar e a natureza da sua base moral.
Em julho de 2007, eu cursava o segundo ano do curso de Geologia, e embora não tivesse muito conhecimento, resolvi percorrer a pé as serras da fazenda da família, procurando o minério que meu avô alegou. A única coisa que encontrei foi a antiga sede da fazenda extremamente deteriorada, arcóseos e arenitos (que não possuem valor comercial) e a castanheira onde meu bisavô fora enterrado.

Guilherme Ferreira da Silva

02 abril 2011

POETA MARGINAL? EU, HEIN?

não nasci em montes claros. não tenho nome completo. não sou professor. não
consegui conciliar nada com a literatura. nunca publiquei nada. atualmente não
resido em porto alegre. não me chamo eduardo veiga. não escrevo poesia há
mais de 15 anos. não estou organizando meu primeiro livro. não sou graduado
em letras. não acredito que a poesia seja necessária. não estou concluindo
nenhum curso de pedagogia. não colaboro em nenhum suplemento literário.
não estou presente em todos os movimentos culturais da minha terra. não sou
membro da academia goiana de letras. não trabalho como assessor cultural da
sec. meus pais não foram ligados ao cinema. não tenho tema preferido. não
comecei a fazer teatro aos 12 anos. não me especializei em literatura hispanoamericana.
não tenho crônicas publicadas n‟o republica de lisboa. não passei
minha infância em pindamonhangaba. não canto a esperança. não recebi
nenhuma premiação em concurso de prosa e poesia. não tenho sete livros
inéditos. não sou considerado um dos maiores poetas brasileiros. nunca fui
convidado para dar palestras em universidades. não vejo poesia em tudo. não
faço parte do grupo noigrandes. não me interesso por literatura infantil. não sou
casado com o poeta afonso ávila. na minha estréia não recebi o prêmio
estadual de poesia. o crítico josé batista nunca disse nada a meu respeito. não
sofri influência de bilac. não sou ativo, nem dinâmico. não me dedico com
afinco à pecuária. não sou portador de vasto curriculum. não recebi mensão
honrosa no concurso de poesia ferreira gullar. não exerço nenhuma atividade
docente, nem decente. não iniciei minha carreira literária no exército. não fui a
primeira mulher eleita para a academia acreana de letras. não tenho poesias
traduzidas para o francês. não estou incluído numa antologia a ser publicada
no méxico. minha poesia não é corajosa. não gosto de arqueologia. walmir
ayalla nunca me considerou um revolucionário. nunca tentei compreender o
homem na sua totalidade. não vim para o brasil com 5 anos de idade. não
aprendi russo para ler maiakowski. meu pai não é chileno. não sou virgem, sou
capricórnio. não sou mãe de seis filhos. não me
responsabilizo pelos poemas que assino. não sou irônico. não considero
drummond o maior poeta da língua portuguesa. não sei em que ano aconteceu a semana de 22. não imito ninguém. não gosto de rock. não sou primo dos irmãos campos. não sou
nem quero ser crítico literário. nunca me elogiaram. nunca me acusaram de
plágio. minha poesia nunca veiculou nada. não sei o que vocês querem de mim. não espero publicar nenhum romance. não sou lírico. não tenho fogo.

não escrevi isto que vocês estão lendo.


Nicolas Behr

20 abril 2010



Palácio da Justiça.

bicho, esse palácio

é a maior cascata!

Nicolas Behr

21 março 2010

(setor de diversões sul, DF)


i


"A história não queria sair, mas eu dei uns golpes nela e a deixei mansinha".

Foi isso que ele me disse quando chegou, segurando a resma de folhas e me oferecendo como se fosse um presente, ou como se fosse o jornal de hoje cheio de notícias boas. Passei os olhos pelos cantos, dando um suspiro e perguntando a mim mesmo se isso era realmente necessário, afinal, mais um escritorzinho de merda não iria ajudar nas vendas da revista, que aliás, eu acreditei desde o princípio que não iria passar do número dez e, vejam só, esta seria a décima edição quinzenal. Queríamos mesmo que a revista fosse adiante, apesar do pessimismo, e por isso tentamos o tal do Abreu de São Paulo, tentamos o Bohr daqui do DF, mas nenhum deles quer associar o seu nome à merda de uma revista sem prestígio. Aliás, até associariam, mas o preço não caberia de forma alguma dentro do nosso orçamento de editora que tem como sede uma sala alugada no Setor de Diversões Sul, do lado do bueiro de mármore que eles chamam de Rodoviária de Brasília.


Aquele jovem me parecia ridículo ali, de pé, com sua mochila jeans nas costas, bem reto e com o sorrisinho arrogante como todos os outros da mesma idade, aliás, acho que por trás do sorriso era fácil perceber a cara derrotada de quem não passou bem a noite, ou talvez dos que acordam cedo demais. Talvez só estivesse drogado, isso mesmo, talvez a sua falta de responsabilidade fosse tamanha que realmente teria aparecido na minha frente drogado, sabendo que eu era a única pessoa em todo este centro-oeste de merda que poderia fazer alguma coisa por ele, torná-lo um escritor de fato, porque seria sua primeira publicação; mas ali estava o filho da puta provavelmente com o rabo cheio de maconha, porque desde os meus tempos de faculdade eu não via olhos tão vermelhos quanto aqueles. Em todo o DF, eu vou repetir, em todo o DF não há um só editor que aceite contos de jovens sem referências, mas meu sócio estava disposto a arriscar, por isso dei-lhe o cartão quando o conheci numa noite dessas no teatro nacional, estava saindo de lá com minha esposa e ele me abordou perguntando se eu era Augusto Soares, disse que me mostraria uma história de deixar o cabelo em pé, e eu disse apressado "passe no meu escritório amanhã", dei-lhe um cartão e o esqueci até o dia seguinte, no caso, o dia em que segue minha narração e voltando a ela, ele continuava lá de frente pra minha mesa esperando de pé que eu lesse todas aquelas páginas do lixozinho que ele com certeza chamava de "minha literatura" para impressionar os seus amigos. Peguei o volume, sim, e nesse instante comecei a folhear preguiçosamente até ter certeza de que aumentaria sua ansiedade a ponto de fazê-lo dar o próximo passo. Vou tomar um café... espere um pouco.


Desculpe a demora, o que acontece é que as coisas aqui não funcionam como deveriam, entende? Olha, perdão, mas o senhor ainda não me disse qual o seu interesse nesse rapaz. Vamos encurtar a história, certinho? Eu publiquei aquele conto, mas tive que cortar alguns parágrafos que achei desnecessários, e além do mais, tínhamos espaço certo pra outras pessoas com um pouco mais de talento do que esse tal Vinícius Prado. Era uma história sobre um drogadinho igual a ele que perde a namorada num acidente de carro e começa a construir dentro da própria mente um domínio onde ela ainda exista, entende? Algo meio esquizofrênico, mas com um ar até simpático. Imaginem só a minha surpresa em relação ao número das vendas? Vendemos todos os números impressos e eu recebi boas críticas por dar vez aos jovens promissores do DF e isso permitiu um suspirozinho a mais pro nosso lado, certo? Queríamos que o garoto contribuísse para o próximo número, mas então ele sumiu e nenhum dos telefones que tínhamos dele funcionava...


Sim. Eu entendo. Então o senhor está me dizendo que ele faleceu? Isso, assassinado, exatamente, como não foi morte natural. É uma lástima... Realmente. Uma lástima. Acho que poderíamos lançar a versão integral do seu conto no próximo número. Escritores de um conto só não fazem sucesso, mas com o conto seguido de uma nota do editor explicando a situação, a coisa fica diferente, não acha? Pelo menos teríamos mais um outro suspiro, o que, com perdão da palavra, só seria possível pelo último suspiro vindo dele. Sim, claro. Se eu lembrar de mais alguma coisa... Sim, eu ligo. Agradeço a visita, senhor. Espero ter ajudado.




Augusto Soares Pinto, editor e sócio da Revista SOMA.
23 de julho de 2008.

28 janeiro 2010

De Irmão Para Irmão



As coisas não podiam andar piores naquela época. Dos antigos amigos só eu continuava indo a sua casa e, de fato, era desagradável estar com ele. Até para mim, de vez em quando. Acho que nessa época o Diego não tomava banho com frequência. Passava dias sem sair do quarto e as vezes não queria ver ninguém. De todo modo o rompimento com a Alice foi o estopim para que isso acontecesse. Em parte, eu era responsável.

Visitava-o sempre depois do trabalho. Ambos morávamos em Taguatinga, ele próximo ao terminal da praça do Relógio e eu algumas quadras depois, na avenida central, de modo que, quando saía do metrô a noite, passava em frente a sua casa antes de ir pra minha. Conversávamos - ou melhor, eu falava e ele ouvia, mas nem sempre - e eu tentava quase sempre animá-lo falando que quando ele voltasse para a faculdade teria tempo de sobre para conhecer outras garotas. E também é verdade que eu não o abandonei por culpa; sim, admito que isso também aconteceu. O que eu posso dizer? Uma vez entrei em seu quarto sem bater, você vê, eu só empurrei a porta porque estava destrancada. O dia ainda não tinha acabado, mas lá dentro do quarto era quase um breu.

Chamei-o antes de dar uns passos, as vezes eu o surpreendia fazendo coisas mais íntimas, sei lá, não quero dar detalhes, mas dessa vez encontrei alguns livros espalhados pelo chão ao redor da sua cama. Quase todos os livros estavam abertos com as páginas viradas para o chão - é assim que ele marcava a sua leitura, não usava marcador de página e eu sempre ri disso porque sei que ele tem uma coleção deles desde criança. Puxei uma cadeira e peguei um livro do chão. O Livro dos Sonhos, Borges, página 78 ou 79, o conto era O Episódio do Inimigo. Compramos esse livro juntos depois de uma discussão no grupo literário sobre autores latinos. Sei que estremeci quando lembrei que foi nessa época que eu conheci a Alice, e no mesmo dia me apaixonei por ela. Naquele dia, me lembro também, quando ele a apresentou para mim, disse que era "a única garota que já o fizera voar".

- ... pro inferno, Léo.

Não tenho certeza se entendi certo o que ele havia dito. Na hora pensei ter ouvido "vai pro inferno, Léo", mas hoje penso que o tom lamurioso na voz dava a entender um "vou pro inferno, Léo". Larguei o livro sobre a cadeira e fiquei de pé. A partir daí as coisas ficam claras para mim, porque sei que essa foi nossa última conversa. Dei um suspiro longo, quase uma bufada (ele me chavama de chaleira porque eu sempre fizera esse ruído quando perdia a paciência) e olhei para o quarto em volta. Tinha um prato com uns pedaços de melão secos cheio de formigas e alguns mosquitos em volta, como se tivesse ficado ali o dia todo. No chão umas peças de roupa empurradas pra de baixo da cama e ali, no meio daquele pardieiro, uma foto de Alice sorrindo. A Alice do sorriso brilhante. Alice do sotaque gaúcho. Alice dos cabelos cheirosos, do beijo frio, da pele branca, das coxas firmes. Minha Alice. Eu não aguentaria mais, acho que você me entende, então contei a ele o que acontecia nos últimos meses entre ela e eu.

Ele se sentou na cama e por alguns instantes ficou com a cabeça apoiada nas mãos. Eu me lembro claramente disso, me lembro como se tivesse vivido esse momento agora a pouco, ou talvez seja só a impressão forte que ficou. Já não tenha certeza. O que seguiu foi que quando ele me olhou não estava chorando (como eu acreditei que estivesse), havia lucidez em seus olhos. Lucidez de mais eu acho, e nessas horas a lucidez é a própria loucura. Não me disse muita coisa, apenas disse que não queria que eu voltasse a vê-lo e que eu fosse embora dali agora, já. Eu respondi com um "sinto muito, meu irmão" e depois deixei o quarto e não voltei a casa dele.

Três ou quatro dias depois, Alice e eu soubemos que ele havia se matado. Pulou da janela do seu quarto indo cair direto na calçada. Morreu, se jogando do sétimo andar. Morreu tentando voar.

27 janeiro 2010


Os Exploradores


(foto: GREGEO-UnB, Caverna 'Cortina Sagrada', 2008)


"Três cronópios e um fama¹ se associam espeleologicamente para descobrir as fontes subterrâneas de um manancial. Próximos da boca da caverna, um cronópio desce, segurado pelos outros, levando nas costas uma mochila com seus sanduíches preferidos (de queijo). Os outros dois cronópios 'cabrestantes' o deixam descer pouco a pouco, enquanto o fama escreve em um grande caderno os detalhes da expedição. Logo chega uma primeira mensagem do cronópio: furioso porque se enganaram e colocaram sanduíches de presunto na mochila. Agita a corda e exige que o subam. Os cronópios 'cabrestantes' se consultam aflitos, o fama se ergue com toda sua terrível estatura e diz: NÃO, com tal violência que os cronópios soltam a corda e acudem a acalmá-lo. Estão nisso quando chega outra mensagem, porque o cronópio caiu justamente sobre as fontes do manancial e de lá comunica que tudo vai mal, entre injúrias e lágrimas informa que os sanduíches são todos de presunto, que por mais que procure e procure entre os sanduíches de presunto, não há um só de queijo."

Historias de cronopios y famas, Julio Cortázar.

¹ Cronópios, para o autor, são os seres mais emotivos (assim como poetas) e os Famas são os racionais, que defendem a órdem estabelecida (assim como advogados).

04 janeiro 2010

Omeoprazol, Diazepan, Insulina NPH e Regular


O que mais me irrita - e eu não estou falando do cheiro de desinfetante, da comida sem gosto, dos ladrilhos azuis ou das enfermeiras carrancudas - o que mais me irrita em hospitais é a lembrança das ocasiões em que passei a noite em um.

cloc cloc cloc cloc cloc cloc

Chega a enfermeira do turno da madrugada, anunciada pelo barulho do sapato de salto vindo do corredor (incomoda muito). Verifica os batimentos cardíacos no visor do aparelinho ligado ao dedo do paciente e, como se não confiasse no que viu, tira o pulso também. Só então ela nota que eu estou acordado, meio abandonado numa cadeira do outro lado da cama, com um livro chamado "Os Senhore do Norte" no colo sem ler, por causa da pouca (ou nenhuma) luz. A enfermeira pigarreia e cloc-cloqueia pra perto de mim,

"Quer um café?" Não, obrigado. "Eu tô evitando; gastrite, sabe?" Não queria café, queria um chá de boldo. Ou melhor, um chá de habu pra me curar da tosse e me deixar de pé, como diz na música. Queria algo amargo que me tirasse a sensação de estômago embrulhado e queria não estar ali. Queria ficar sentado com meu avô na calçada ouvindo o acordeon e, nas pausas entre uma música e outra, ouvir ele me perguntar se eu não tenho medo de onça no meio do mato.

"Ele vai dormir um pouco. Tomou omeoprazol agora" e diazepan, insulina NPH e regular também. "Pode ficar tranquilo, nenem". Apesar de eu ter dito meu nome duas vezes a enfermeira se recusava a usá-lo. Fiz uma careta, meio protegido pelo escuro. Esperei ela cloc-cloquear pra fora e resolvi dar uma volta. Levantei da cadeira pra procurar meu tênis e só ao calçá-lo percebi que estava com pés de meia diferentes, "Mais um pouco", penso eu, "e eu convenço todo mundo a me internar aqui também". Não faltava muito.

Fui lá fora cheirar ar não desinfetado e ver um pouco de cor que não fosse azul piscina. Ou azul da prússia, tanto faz o nome, o que acontece é que essas cores deprimem a gente. Voltei pouco depois, tomado de medo que ele passasse mal e eu não estivesse no quarto. Encontrei-o acordado, o que era surpresa pela quantidade de remédio que tomou, e cheguei perto da cama dele. "O sapato da enfermeira não deixa a gente dormir". Ri disso. Sentei na cadeira e puxei-a pra perto dele. "Guizim, me diz uma coisa... Você não tem medo de onça?" ele me pergunta. Hoje, vô, meu maior medo é outra coisa.

27 dezembro 2009

Conto de Natal

Começaram ainda na escola, lá pelos quinze (ele) e dezesseis anos (ela). Enfrentaram os pais, algum preconceito de cor (ele negro, ela filha de alemães) e seus próprios medos e paradigmas, porque é isso que melhor fazemos juntos, criar e quebrar paradigmas. Aprenderam a conviver, a contar segredos e a dividir certas cargas da vida; ela aprendeu a chorar, a sorrir e a expressar seu interior passando por cima do sangue gelado dos germânicos. Ele aprendeu a beber e também arriscou suas primeiras palavras numa segunda língua estrangeira. Eles se casariam, teriam filhos, dois, Miguel e Hilda, viveriam em uma casa na parte histórica da cidade onde abririam juntos um escritório de advocacia, e morariam longe dos pais, mas sem mudar da cidade. Ele foi estudar em Ouro Preto e ela ficou. Terminaram o namoro no terceiro período de faculdade (dele). Hoje ele passa as noites de férias em um puteiro chamado Sunshine, bebendo uísque e gastando o dinheiro dos pais. Ela se casou com um tal Tomas Fritsche, tem um filho chamado Joaquim e me disse que quer ter um segundo filho, aos vinte e dois anos. História curtíssima.

30 novembro 2009

A Carioca

Ela era uma tremenda mulher! Daquelas que deixam a gente com vontade de levar pra casa. Por diversas vezes eu realmente tentei, mas antes de efetivamente conseguir ela sempre sorria furtivamente e me dizia um não tão doce que eu não sabia exatamente se me dispensava por asco ou por eu ser um canalha pobretão, tão canalha quanto pobretão, vale ressaltar - porém tenho que dizer que ainda levo certo jeito para a coisa em si.

Aos que não me conhecem, vou me descrever. Sou um velho guará sarnento, como já me chamaram, que trabalha há 25 anos no mesmo departamento do Mistério da Fazenda. Aos olhos de quem me vê, sou um homem que já passou da casa dos 50, com cabelos grisalhos sempre penteados para trás, barba cobrindo o rosto e vestido todos os dias com o mesmo terno cinza fosco cheio de pequenas queimaduras de cigarro. Aliás, no final do dia eu normalmente acendo um charuto e vou fumando com um sorriso pelo caminho entre o ministério e a estação de metrô. Já me disseram que eu tenho um riso de velho safado e, no caso, acho que o velho foi maior ofensa do que o safado.

Já ela, hmm, ela era linda. Mas linda mesmo. Tinha aquele rabo grande que boa parte das cariocas têm, mas não era só isso. A carne macia dos vinte e poucos, a voz sibilante, a cara de falsa inocente e as coxas que as vezes apareciam pela abertura lateral do vestido quando ela se sentava, e bom deus (se é que deus é mesmo bom e gosta de mulher, porque eu não sou muito entendido. Entendido sobre deus, porque eu entendo de mulher), eu sempre chegava cedo para surpreendê-la se sentando pela manhã. Mas enfim, o que importa é que certa noite de chuva eu saía do ministério pelo prédio anexo pensando em como eu acenderia meu charuto com essa merda de tempestade em pleno setembro, onde é que já se viu isso? e lá estava ela, discutindo com o babaca do namorado dentro de um Renault preto. Fingi que ia esperar a chuva parar e fiquei debaixo do abrigo da entrada só assistindo a briga. Não ouvia nada, mas o babaca parecia negar alguma coisa e ela tinha cara de choro. Acendi meu charuto e como quem não quer nada comecei a procurar por um guarda-chuva na maleta que levo sempre comigo. Tudo indicava que ela estaria solteira hoje e eu não ia dar espaço pra outro.

Para minha sorte ela saiu do carro gritando e o filho da puta saiu cantando os pneus, que o diabo o carregasse, porque pra dispensar uma coisinha dessas ele só deve ser burro ou bicha, coisa que eu não era, nem um nem outro. Corri com o guarda-chuva aberto para cobri-la da chuva. Ela mal me viu e me abraçou e como eu suspeitava ela estava chorando. Consolei-a durante mais de uma hora, levei-a até o metrô e de lá pegamos o trem para minha casa. Sentamos num cantinho do último vagão, o que foi difícil por causa da quantidade de gente mas em tudo dá-se em jeito, hehe. Ela chorava no começo e eu fui dizendo que ele não a merecia, que ele devia ser bicha e que ela devia esquecê-lo. Antes que chegássemos em casa eu já tinha conseguido convencê-la a ter raiva do babaca. Levei-a para dentro de casa, fechei a porta e ofereci algo pra beber. Ela quis conhaque mas eu disse que só tinha vodka. Bebemos, eu sempre servindo um copo bem grande para os dois, mas ela bebia mais rápido do que eu. Quando percebi, ela chegou perto de mim me abraçando e dizendo que eu era muito bonzinho, que eu cuidava dela e que ela sempre percebia quando eu olhava para as pernas dela, como eu a queria, eu a queria não é? Sim, eu dizia, eu queria muito. Daí em diante foi só um pulo.

Levei-a para o quarto e coloquei-a na cama, beijei a boca dela me deitando ao lado, mordi o pescoço, beijei o ventre, beijei a coxa e naquele instante me lembrei das prováveis horas da minha vida que eu passei olhando e desejando aquela coxa, cobiçando aquele corpo. Mordi-a com mais força e arranquei um naco da carne. Mordi denovo e denovo. Ela realmente era muito gostosa.

Então eu a comi. Literalmente.


Singela homenagem de um leitor a Charles Bukowski, o velho safado.

12 novembro 2009

Apenas medio elenco estable


me gusta mirar
la lluvia
que cae
por las
calles
en las tardes
de gris.


tarde o temprano
me vuelvo lejano
y quedo a pensar
se todo no pasa
de broma del
tiempo,
o se fuera feliz.

08 novembro 2009

O MONSTRO DO LAGO

Ei-la, do alto da sua cadeira almofadada, com uma régua de madeira nas mãos ela vigia a conduta da sua única aluna que termina um trabalho com lápis de cor. A professora usa os cabelos soltos, bem corridos, caídos sobre os ombros. A gravidade do seu rosto já dá indícios de um temperamento forte e do gênio voluntarioso que tem. As manchas perto da sua boca dão a entender que andou comendo chocolate recentemente... A professora é uma menina de quatro anos, que apesar da pouca idade, dirige a sua escola de uma única aluna com pulso firme. A aluna, sua prima, tem dezoito. Mas nem a grande diferença de idade impede a pequena ditadorazinha de impor a sua vontade sobre a pupila.
Cedendo à tentação a professora, usando a destra com habilidade invejável, começa também a colorir. Divide o papel com uma linha na porção inferior, desenha um retângulo fechado por um dos lados com a linha já traçada, um triângulo aproveitando a base oposta do retângulo, e assim, com traços decididos (como era de se esperar, do seu pulso firme de educadora de quatro anos de idade) termina o que pode ser visto como um prédio. Ou como uma nave espacial, tudo depende se as janelinhas são redondas ou retangulares.
Finalmente, dá uma folguinha para sua aluna e abandona a mesa da cozinha, mas não sem antes dizer um "fica comportadinha, viu?". Se dirige até o quarto do primo mais velho e o convida para brincar também. O primo a segura por debaixo do braço, levantando-a sobre a cabeça e dá um beijo na sua barriga. A professora aceita o destino com um estoicismo incrível, depois, o primo volta a professora pro chão firme e se joga na sua cama para retomar a leitura de um livro. "Brinca com a gente, Gui!" ela insiste, puxando-o pelo braço. O convence, mas seu poder de persuasão não é tanto quanto ela imagina. O primo invade a sala de aula, bagunça os lapis, belisca a aluna, que é sua irmã, morde a professora, rouba um copo com suco e um pão caseiro e retorna para o quarto. "Eu sou o Mooooonstro do LAAAAAGO", diz enquanto se serve do suco. A professora têm medo. A aluna, irritada, arruma a bagunça que o monstro do lago deixou na sala de aula. A professora então, assustada, diz que é preciso se proteger do monstro. A besta do lago ainda tem tempo de dizer um "Não se preocupa, o monstro do lago só aparece uma vez por mês!", daí bate a porta do seu quarto.
A pequena professora então conclui que o monstro do lago deve ser algum tipo de cobrador ou conta de luz. Pacientemente, retoma as atividades naquela escola instalada na cozinha de um apartamento da região metropolitana de Brasília. E a paz volta a reinar por aqueles lados.

24 outubro 2009

A última coisa que Epifânio Barreiros lembraria na hora da morte seria que esquecera de dar os vinte contos de réis que devia ao senhor Joaquim Ulhôa.

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Naquele mesmo dia, cinco horas antes morrer, Epifânio Augusto de Oliveira e Barreiros passara toda a manhã dentro do seu gabinete limpando escrupulosamente o rifle Winchester 1895, enfurnado em um dos vastos cômodos da sua casa da cidade, instalada no largo dos Faria de frente ao cemitério. O rifle teria ficado pendurado na parede do gabinete por vários anos desde o dia em que ele havia disparado contra o próprio irmão por uma disputa de terras.

Fazia uma semana desde que o primeiro aviso havia chegado alertando que o Terceiro Destacamento da Coluna Prestes avançava em direção à cidade de Sant'Ana dos Pilões. Um mascate vindo da direção de São Sebastião dos Cristais foi o primeiro a alertar para o fato do bando tomar o rumo da cidade, mas nenhum dos homens de bem deu crédito ao que o mascate dizia. Quatro dias depois o senhor Epifânio Barreiros recebeu em sua casa um negrinho que dizia ter vindo a mando de Raul Adjuto para avisar que dois homens que usavam lenços vermelhos presos no pescoço foram abatidos nos lados do rio São Marcos, e ambos estavam armados.

Epifânio Barreiros repassou a notícia ao delegado e ao senhor Joaquim Ulhôa, que então era presidente da câmara municipal, mas ambos acharam cedo demais para alertar a população. "Eles vão passar direto, Coronel" dizia Joaquim Ulhôa, "não há nada por esses lados que possa interessar a essa gente, a não ser a poeira e os pretos; mas a gente pode encontrar os dois em todo lugar". Era um homem gordo, de olhos pequenos e de um grande nariz afilado, principal herança física que transmitiria aos seus filhos - legais ou bastardos. Em verdade, o que preocupava mais o senhor Joaquim Ulhôa era outro assunto, "E quanto ao dinheiro do gado, Coronel, o senhor poderia se achegar pra jantar conosco dia desses, daí conversamos melhor".

Sant'Ana dos Pilões já fora um povo importante na época em que chamavam as Minas Gerais de província, e não de estado. Muito tempo atrás, o avô do avô do avô do senhor Epifânio Barreiros se instalara na aldeia que os bandeirantes paulistas haviam construído quando encontraram ouro nos aluviões de um córrego largo nascido em uma serra com formato de um pilão. Desde então, o seu sobrenome participou e assistiu todas as etapas da história do lugar: a emancipação febril concedida por dona Maria Louca (rainha de Portugal), a rápida ascensão do mercado do ouro na região e o êxodo que se seguiu na cidade ao fim do ouro fácil. Só ficaram na cidade aqueles que não tinham onde ir e aqueles que tinham terras por aquelas bandas.

Depois foi a guerra do Paraguay, os Barreiros enviaram para o Exército Imperial vários escravos para lutar na contenda, e inclusive o primeiro Epifânio Augusto Barreiros teria lutado na Batalha do Riachuelo, e é por esse motivo que chamavam qualquer homem da família dos Barreiros de "Coronel". A história seguiu com a libertação dos negros, a proclamação da República e outras mudanças de um cosmo maior que não afetava diretamente a realidade na cidade de Sant'Ana: continuava-se fazendo calor, as negras de ancas largas ainda lavavam roupa na prainha dos macacos e as principais famílias do lugar ainda ditavam as regras, como sempre fora e como sempre haveria de ser, com a graça do Nosso Santíssimo Senhor Jesus Cristo.

Agora, um tal de Siqueira Campos, subalterno de um outro tal Luís Carlos Prestes, que saía por aí espalhando a desordem no país com uma horda de maltrapilhos armados, ameaçavam a rotina sacramentada pelo tempo naquele lugarejo esquecido tanto pelo deus cristão quanto pelos deuses negros. Por isso os homens de bem do lugar teriam que pegar em armas mais uma vez para defender a cidade dos revoltosos. Antônio de Siqueira Campos não fazia idéia, mas a simples menção da sua chegada mudaria toda a história de uma família.

02 outubro 2009

"com deus não me deito
e nem me levanto
mas com a virgem maria
seria uma noite e tanto"
Mário Prata

12 setembro 2009

Detesto o silêncio

Não o silêncio do meu quarto, mas sim o silêncio entre duas pessoas.

Naquela noite, tínhamos ido ao teatro. Ela, como sempre, foi crítica até demais: achou a iluminação ruim e a acústica mal implementada. Eu achei legal. A atriz principal interpretava Elektra filha de Agamênon, e tinha uma voz levemente fanhosa. Coisa besta, que quase ninguém deve ter percebido (talvez pela acústica ruim), mas eu percebi. E imaginei a Elektra de verdade - se houver existido uma - sofrendo com problemas de dicção. Ri disso. Ela não entendeu o motivo do meu humor. Fechou a cara e recomeçou a criticar a iluminação.

De lá passamos num supermercado pra comprar bebida. Ela dirigia e isso sempre me deixou incomodado - o fato de depender do carro dela para saírmos. Acho que é uma das atitudes ditas provincianas que eu não conseguia largar. Mal dos homens do interior. Por isso eu fazia questão de pagar suas coisas. O ingresso do teatro, a conta do jantar e a garrafa da vodka com frutas. Poderíamos beber ali no estacionamento, mas com a lei seca os polícias de Brasília andavam rondando esses locais exatamente com a intenção de flagrar motoristas bebendo pra multá-los logo adiante; por isso fomos pro mirante. E no carro mais uma vez: silêncio.

Descemos a pista do mirante ao lado da ponte, ela estacionou no gramado onde antes havia um carrinho de cachorro quente. Descemos do carro, eu com a garrafa na mão e ela com um casaco, braços cruzados bem apertados contra o peito. Resolvi quebrar aquele gelo:

- acho que vai chover. olhei para o céu - nublado, mas sem sinal de chuva.

- acho que a gente tem que beber. ela me disse e se aproximou de mim, passando o braço pelo meu, me trazendo para perto.

Sentamos na grama e eu pelejei para abrir a garrafa. Uma, duas, três tentativas. Mais uma surra no meu ego masculino, e como de costume xinguei alguma coisa. Ela riu. E eu abri a garrafa, passei pra ela e fiquei torcendo minha mão direita. Gole curto. Careta. Gole longo.

- o lago a noite é lindo. me lembra o mar.

- é. (ela tinha me passado a garrafa)

- e se tiver greve?

- se tiver greve eu vou pra casa. que se foda o estágio.

ela torceu o nariz. eu havia comentado sobre o estágio, mas não sobre ela. sobre nós. Ficamos em silêncio mais uma vez.

- Detesto o silêncio... Esses silêncios que incomodam. Sabe como você sabe quando tem uma pessoa pra vida toda? Quando você pode ficar em silêncio com ela por quarenta minutos inteiros e não se incomodar com isso.

- isso é do Tarantino? (ela perguntou depois de eu tê-la devolvido a garrafa).

- Tarantino. Sim.

- você tá ficando bobo com esses filmes... (me devolve a garrafa sem beber).

Eu bebo. Mais pela frustração do que por vontade. Enquanto estou bebendo não tenho que falar. E agora, algum tempo depois, posso pensar direito sobre o ocorrido. Eu já tinha perdido. Ela já não queria mais.


Passei a garrafa.

Aproximei pra beijá-la - nós homens tentamos às vezes corrigir certas coisas com beijo ou sexo, algumas delas detestam isso.

Ela afastou o rosto.

- eu quero ir embora... nem me olhou quando disse.

- eu quero ficar.

olhava pro lago. e pior do que o silêncio, é o gosto da frustração. Aquela frustração que senti quando ela se levantou sem me dizer uma única palavra, entrou no carro e se foi. Mais uma vez, silêncio. Ela não estava lá, mas o silêncio entre nós havia ficado. Pelo menos restava a garrafa. Vodka e frutas vermelhas. O lago. A ponte. Bebi até os ônibus começarem a passar.

Ainda detesto aquele silêncio.

11 agosto 2009

História Curtíssima


Era a terceira atriz com quem eu havia ficado junto em menos de um ano. Não sei exatamente o que é, não procuro conscientemente esse tipo de mulher, mas pensando melhor vejo que se todas passam a vida fingindo, é melhor que eu esteja pelo menos com alguém que seja convincente. Estávamos juntos há tempo suficiente para ela conhecer minhas manias e suportar minhas ausências; era o que poderíamos chamar de relação estável: e isso me agradava incrivelmente. Tanto que cheguei a ponto de comprar uma aliança - de ouro - e queria pedi-la em noivado. A idéia do casamento não passava pela minha cabeça, com o dinheiro da bolsa do mestrado eu mal conseguia pagar as contas, eu já não vendia uma história há um bom tempo, mas já vínhamos morando juntos há dois meses e o noivado era uma das melhores formas de regularizar a situação para com a família dela, extremamente tradicionalista.

Ela iria estrear naquele dia uma peça de um filósofo francês vesgo que em meados do século XX se metera a dramaturgo; e naquele dia durante o café da manhã Carolina - esse era o seu nome - era toda "mon amour", "la colline des roses" e "Je déteste les mois de décembre". Sorria bastante e parecia animada quando eu saí de casa e a deixei recitando as suas falas e decorando as cenas, e quando lhe dei um beijo e descia as escadas fiquei sentindo o cheiro do protetor solar dela que me impregnou.

Naquela noite, sentei-me na terceira fileira e enquanto a cortina ainda estava baixa prendi minha atenção na plateia - ou na falta dela, porque poucas pessoas haviam se interessado pela peça e aquela sala de teatro no setor de autarquias norte estava realmente entregue "às moscas". Havia alguns senhores de idade espalhados pela platéia e uma única família composta provavelmente por mãe, pai e filho e o menino não parava de reclamar dizendo que preferia estar em casa. Logo as luzes se apagaram e a cortina subiu, e ainda na primeira parte pude ver Carolina ajoelhada num cenário que imitava uma ruela suja, estava se lamuriando por algo que não pude entender.

O primeiro ato foi extremamente ruim e eu esperava que a peça melhorasse nos que viriam a seguir. Ela havia atuado muitíssimo mal, porque dava pra ver que o choro era extremamente forçado assim como o falso sotaque francês e isso me deixava irritado - eu sabia que ela era melhor do que aquilo. Por isso, cheguei a conclusão de que era proposital, mas por que diabos ela estava agindo assim?

Acho que comecei a cochilar, mas não tenho certeza porque meu estômago doía tanto naquele dia que duvido que eu tenha realmente pegado no sono e um senhor idoso vestido com roupas bastante antiquadas se postou do meu lado e chamou meu nome duas vezes. Vi que ele tinha um frio sorriso com uma cortesia distante, e logo que eu parecia recuperado do atordoamento que sofremos ao sermos despertados, ele me disse para acompanhá-lo até os bastidores. Segui por trás da cortina lateral e vadeei pela penumbra, quase tropeçando em um algo coberto por um forro branco ou um lençol, parei onde me ordenaram e aquele senhor com as roupas antiquadas me deu algo envolto num pano, pedindo que eu segurasse. Fiquei assim por alguns minutos, meio que tentando acostumar os olhos com a escuridão e quando finalmente consegui, notei que estava num palco, onde haviam móveis figurando um cenário que não pude reconhecer como sendo da peça.

Repentinamente uma cortina subiu ao meu lado e as luzes fortes dos refletores fizeram meus olhos doerem, e mais uma vez demorei a me acostumar com o ambiente. O que me chamou atenção naquilo foram os aplausos, então eu me dei conta de que estava realmente num palco. Os aplausos começaram fortes e foram morrendo aos poucos, a medida que alguém irrompia uma gargalhada ao meu lado então eu pude olhar abismado para as cadeiras vazias - quem estava aplaudindo então?

Ainda confuso, notei que as gargalhadas continuaram, então pude ver que a coisa coberta que eu quase tropeçara eram duas pessoas deitadas no que parecia uma cama baixa e cobertas com um lençol branco, (...)

12 abril 2009

FOME


porque Clarice é um abismo
por falta de tato ou cismo.
que consome o que encontra

vagueia no canto a esmo.
por falta de alma nem mesmo
pode ver o que afronta

No fim veio a cocaína
e nos pulsos lâmina fina.
Não vem medo nem aflição

porque Clarice é um abismo e

até parecia que era minha aquela solidão.