08 maio 2014
19 novembro 2013
O Vinícius era um aluno totalmente regular. Regular, acho que essa é a palavra exata. Notas regulares, interesse regular, desempenho regular. Fui sua orientadora no programa de educação tutorial em 2007. Era esforçado, parece que usava a bolsa para ajudar em casa. As vezes gostava de vagabundear no Café das Letras, ali perto do restaurante, sabe? Eu o via frequentemente ali junto de um tipinho esquisito... Bem, nada suspeito, se o senhor me entende. Por outro lado era um rapaz muito esforçado. Veio do interior e morava no entorno. Valparaíso, eu acho. Não... não tenho certeza se ainda morava com a mãe nos últimos dias. Eu perdi o contato quando a vigência da bolsa dele acabou. Trabalhávamos com tradição oral nas tribos paetés...
17 novembro 2013
História de família.
Guilherme Ferreira da Silva
02 abril 2011
21 março 2010
(setor de diversões sul, DF)28 janeiro 2010

27 janeiro 2010
Os Exploradores
"Três cronópios e um fama¹ se associam espeleologicamente para descobrir as fontes subterrâneas de um manancial. Próximos da boca da caverna, um cronópio desce, segurado pelos outros, levando nas costas uma mochila com seus sanduíches preferidos (de queijo). Os outros dois cronópios 'cabrestantes' o deixam descer pouco a pouco, enquanto o fama escreve em um grande caderno os detalhes da expedição. Logo chega uma primeira mensagem do cronópio: furioso porque se enganaram e colocaram sanduíches de presunto na mochila. Agita a corda e exige que o subam. Os cronópios 'cabrestantes' se consultam aflitos, o fama se ergue com toda sua terrível estatura e diz: NÃO, com tal violência que os cronópios soltam a corda e acudem a acalmá-lo. Estão nisso quando chega outra mensagem, porque o cronópio caiu justamente sobre as fontes do manancial e de lá comunica que tudo vai mal, entre injúrias e lágrimas informa que os sanduíches são todos de presunto, que por mais que procure e procure entre os sanduíches de presunto, não há um só de queijo."
Historias de cronopios y famas, Julio Cortázar.
¹ Cronópios, para o autor, são os seres mais emotivos (assim como poetas) e os Famas são os racionais, que defendem a órdem estabelecida (assim como advogados).
04 janeiro 2010
O que mais me irrita - e eu não estou falando do cheiro de desinfetante, da comida sem gosto, dos ladrilhos azuis ou das enfermeiras carrancudas - o que mais me irrita em hospitais é a lembrança das ocasiões em que passei a noite em um.
cloc cloc cloc cloc cloc cloc
"Quer um café?" Não, obrigado. "Eu tô evitando; gastrite, sabe?" Não queria café, queria um chá de boldo. Ou melhor, um chá de habu pra me curar da tosse e me deixar de pé, como diz na música. Queria algo amargo que me tirasse a sensação de estômago embrulhado e queria não estar ali. Queria ficar sentado com meu avô na calçada ouvindo o acordeon e, nas pausas entre uma música e outra, ouvir ele me perguntar se eu não tenho medo de onça no meio do mato.
"Ele vai dormir um pouco. Tomou omeoprazol agora" e diazepan, insulina NPH e regular também. "Pode ficar tranquilo, nenem". Apesar de eu ter dito meu nome duas vezes a enfermeira se recusava a usá-lo. Fiz uma careta, meio protegido pelo escuro. Esperei ela cloc-cloquear pra fora e resolvi dar uma volta. Levantei da cadeira pra procurar meu tênis e só ao calçá-lo percebi que estava com pés de meia diferentes, "Mais um pouco", penso eu, "e eu convenço todo mundo a me internar aqui também". Não faltava muito.
Fui lá fora cheirar ar não desinfetado e ver um pouco de cor que não fosse azul piscina. Ou azul da prússia, tanto faz o nome, o que acontece é que essas cores deprimem a gente. Voltei pouco depois, tomado de medo que ele passasse mal e eu não estivesse no quarto. Encontrei-o acordado, o que era surpresa pela quantidade de remédio que tomou, e cheguei perto da cama dele. "O sapato da enfermeira não deixa a gente dormir". Ri disso. Sentei na cadeira e puxei-a pra perto dele. "Guizim, me diz uma coisa... Você não tem medo de onça?" ele me pergunta. Hoje, vô, meu maior medo é outra coisa.
27 dezembro 2009
Começaram ainda na escola, lá pelos quinze (ele) e dezesseis anos (ela). Enfrentaram os pais, algum preconceito de cor (ele negro, ela filha de alemães) e seus próprios medos e paradigmas, porque é isso que melhor fazemos juntos, criar e quebrar paradigmas. Aprenderam a conviver, a contar segredos e a dividir certas cargas da vida; ela aprendeu a chorar, a sorrir e a expressar seu interior passando por cima do sangue gelado dos germânicos. Ele aprendeu a beber e também arriscou suas primeiras palavras numa segunda língua estrangeira. Eles se casariam, teriam filhos, dois, Miguel e Hilda, viveriam em uma casa na parte histórica da cidade onde abririam juntos um escritório de advocacia, e morariam longe dos pais, mas sem mudar da cidade. Ele foi estudar em Ouro Preto e ela ficou. Terminaram o namoro no terceiro período de faculdade (dele). Hoje ele passa as noites de férias em um puteiro chamado Sunshine, bebendo uísque e gastando o dinheiro dos pais. Ela se casou com um tal Tomas Fritsche, tem um filho chamado Joaquim e me disse que quer ter um segundo filho, aos vinte e dois anos. História curtíssima.
30 novembro 2009
12 novembro 2009
08 novembro 2009
24 outubro 2009
iSant'Ana dos Pilões já fora um povo importante na época em que chamavam as Minas Gerais de província, e não de estado. Muito tempo atrás, o avô do avô do avô do senhor Epifânio Barreiros se instalara na aldeia que os bandeirantes paulistas haviam construído quando encontraram ouro nos aluviões de um córrego largo nascido em uma serra com formato de um pilão. Desde então, o seu sobrenome participou e assistiu todas as etapas da história do lugar: a emancipação febril concedida por dona Maria Louca (rainha de Portugal), a rápida ascensão do mercado do ouro na região e o êxodo que se seguiu na cidade ao fim do ouro fácil. Só ficaram na cidade aqueles que não tinham onde ir e aqueles que tinham terras por aquelas bandas.
Agora, um tal de Siqueira Campos, subalterno de um outro tal Luís Carlos Prestes, que saía por aí espalhando a desordem no país com uma horda de maltrapilhos armados, ameaçavam a rotina sacramentada pelo tempo naquele lugarejo esquecido tanto pelo deus cristão quanto pelos deuses negros. Por isso os homens de bem do lugar teriam que pegar em armas mais uma vez para defender a cidade dos revoltosos. Antônio de Siqueira Campos não fazia idéia, mas a simples menção da sua chegada mudaria toda a história de uma família.
02 outubro 2009
12 setembro 2009
Não o silêncio do meu quarto, mas sim o silêncio entre duas pessoas.
Naquela noite, tínhamos ido ao teatro. Ela, como sempre, foi crítica até demais: achou a iluminação ruim e a acústica mal implementada. Eu achei legal. A atriz principal interpretava Elektra filha de Agamênon, e tinha uma voz levemente fanhosa. Coisa besta, que quase ninguém deve ter percebido (talvez pela acústica ruim), mas eu percebi. E imaginei a Elektra de verdade - se houver existido uma - sofrendo com problemas de dicção. Ri disso. Ela não entendeu o motivo do meu humor. Fechou a cara e recomeçou a criticar a iluminação.
De lá passamos num supermercado pra comprar bebida. Ela dirigia e isso sempre me deixou incomodado - o fato de depender do carro dela para saírmos. Acho que é uma das atitudes ditas provincianas que eu não conseguia largar. Mal dos homens do interior. Por isso eu fazia questão de pagar suas coisas. O ingresso do teatro, a conta do jantar e a garrafa da vodka com frutas. Poderíamos beber ali no estacionamento, mas com a lei seca os polícias de Brasília andavam rondando esses locais exatamente com a intenção de flagrar motoristas bebendo pra multá-los logo adiante; por isso fomos pro mirante. E no carro mais uma vez: silêncio.
Descemos a pista do mirante ao lado da ponte, ela estacionou no gramado onde antes havia um carrinho de cachorro quente. Descemos do carro, eu com a garrafa na mão e ela com um casaco, braços cruzados bem apertados contra o peito. Resolvi quebrar aquele gelo:
- acho que vai chover. olhei para o céu - nublado, mas sem sinal de chuva.
- acho que a gente tem que beber. ela me disse e se aproximou de mim, passando o braço pelo meu, me trazendo para perto.
Sentamos na grama e eu pelejei para abrir a garrafa. Uma, duas, três tentativas. Mais uma surra no meu ego masculino, e como de costume xinguei alguma coisa. Ela riu. E eu abri a garrafa, passei pra ela e fiquei torcendo minha mão direita. Gole curto. Careta. Gole longo.
- o lago a noite é lindo. me lembra o mar.
- é. (ela tinha me passado a garrafa)
- e se tiver greve?
ela torceu o nariz. eu havia comentado sobre o estágio, mas não sobre ela. sobre nós. Ficamos em silêncio mais uma vez.
- Detesto o silêncio... Esses silêncios que incomodam. Sabe como você sabe quando tem uma pessoa pra vida toda? Quando você pode ficar em silêncio com ela por quarenta minutos inteiros e não se incomodar com isso.
- isso é do Tarantino? (ela perguntou depois de eu tê-la devolvido a garrafa).
- Tarantino. Sim.
- você tá ficando bobo com esses filmes... (me devolve a garrafa sem beber).
Passei a garrafa.
Aproximei pra beijá-la - nós homens tentamos às vezes corrigir certas coisas com beijo ou sexo, algumas delas detestam isso.
Ela afastou o rosto.
- eu quero ir embora... nem me olhou quando disse.
- eu quero ficar.
olhava pro lago. e pior do que o silêncio, é o gosto da frustração. Aquela frustração que senti quando ela se levantou sem me dizer uma única palavra, entrou no carro e se foi. Mais uma vez, silêncio. Ela não estava lá, mas o silêncio entre nós havia ficado. Pelo menos restava a garrafa. Vodka e frutas vermelhas. O lago. A ponte. Bebi até os ônibus começarem a passar.
Ainda detesto aquele silêncio.
11 agosto 2009
História Curtíssima
Era a terceira atriz com quem eu havia ficado junto em menos de um ano. Não sei exatamente o que é, não procuro conscientemente esse tipo de mulher, mas pensando melhor vejo que se todas passam a vida fingindo, é melhor que eu esteja pelo menos com alguém que seja convincente. Estávamos juntos há tempo suficiente para ela conhecer minhas manias e suportar minhas ausências; era o que poderíamos chamar de relação estável: e isso me agradava incrivelmente. Tanto que cheguei a ponto de comprar uma aliança - de ouro - e queria pedi-la em noivado. A idéia do casamento não passava pela minha cabeça, com o dinheiro da bolsa do mestrado eu mal conseguia pagar as contas, eu já não vendia uma história há um bom tempo, mas já vínhamos morando juntos há dois meses e o noivado era uma das melhores formas de regularizar a situação para com a família dela, extremamente tradicionalista.
Ela iria estrear naquele dia uma peça de um filósofo francês vesgo que em meados do século XX se metera a dramaturgo; e naquele dia durante o café da manhã Carolina - esse era o seu nome - era toda "mon amour", "la colline des roses" e "Je déteste les mois de décembre". Sorria bastante e parecia animada quando eu saí de casa e a deixei recitando as suas falas e decorando as cenas, e quando lhe dei um beijo e descia as escadas fiquei sentindo o cheiro do protetor solar dela que me impregnou.
Naquela noite, sentei-me na terceira fileira e enquanto a cortina ainda estava baixa prendi minha atenção na plateia - ou na falta dela, porque poucas pessoas haviam se interessado pela peça e aquela sala de teatro no setor de autarquias norte estava realmente entregue "às moscas". Havia alguns senhores de idade espalhados pela platéia e uma única família composta provavelmente por mãe, pai e filho e o menino não parava de reclamar dizendo que preferia estar em casa. Logo as luzes se apagaram e a cortina subiu, e ainda na primeira parte pude ver Carolina ajoelhada num cenário que imitava uma ruela suja, estava se lamuriando por algo que não pude entender.
O primeiro ato foi extremamente ruim e eu esperava que a peça melhorasse nos que viriam a seguir. Ela havia atuado muitíssimo mal, porque dava pra ver que o choro era extremamente forçado assim como o falso sotaque francês e isso me deixava irritado - eu sabia que ela era melhor do que aquilo. Por isso, cheguei a conclusão de que era proposital, mas por que diabos ela estava agindo assim?
Acho que comecei a cochilar, mas não tenho certeza porque meu estômago doía tanto naquele dia que duvido que eu tenha realmente pegado no sono e um senhor idoso vestido com roupas bastante antiquadas se postou do meu lado e chamou meu nome duas vezes. Vi que ele tinha um frio sorriso com uma cortesia distante, e logo que eu parecia recuperado do atordoamento que sofremos ao sermos despertados, ele me disse para acompanhá-lo até os bastidores. Segui por trás da cortina lateral e vadeei pela penumbra, quase tropeçando em um algo coberto por um forro branco ou um lençol, parei onde me ordenaram e aquele senhor com as roupas antiquadas me deu algo envolto num pano, pedindo que eu segurasse. Fiquei assim por alguns minutos, meio que tentando acostumar os olhos com a escuridão e quando finalmente consegui, notei que estava num palco, onde haviam móveis figurando um cenário que não pude reconhecer como sendo da peça.
Repentinamente uma cortina subiu ao meu lado e as luzes fortes dos refletores fizeram meus olhos doerem, e mais uma vez demorei a me acostumar com o ambiente. O que me chamou atenção naquilo foram os aplausos, então eu me dei conta de que estava realmente num palco. Os aplausos começaram fortes e foram morrendo aos poucos, a medida que alguém irrompia uma gargalhada ao meu lado então eu pude olhar abismado para as cadeiras vazias - quem estava aplaudindo então?
Ainda confuso, notei que as gargalhadas continuaram, então pude ver que a coisa coberta que eu quase tropeçara eram duas pessoas deitadas no que parecia uma cama baixa e cobertas com um lençol branco, (...)
12 abril 2009
por falta de tato ou cismo.
que consome o que encontra
vagueia no canto a esmo.
por falta de alma nem mesmo
No fim veio a cocaína
e nos pulsos lâmina fina.
Não vem medo nem aflição
porque Clarice é um abismo e
até parecia que era minha aquela solidão.


