02 Abril 2011

POETA MARGINAL? EU, HEIN?

não nasci em montes claros. não tenho nome completo. não sou professor. não
consegui conciliar nada com a literatura. nunca publiquei nada. atualmente não
resido em porto alegre. não me chamo eduardo veiga. não escrevo poesia há
mais de 15 anos. não estou organizando meu primeiro livro. não sou graduado
em letras. não acredito que a poesia seja necessária. não estou concluindo
nenhum curso de pedagogia. não colaboro em nenhum suplemento literário.
não estou presente em todos os movimentos culturais da minha terra. não sou
membro da academia goiana de letras. não trabalho como assessor cultural da
sec. meus pais não foram ligados ao cinema. não tenho tema preferido. não
comecei a fazer teatro aos 12 anos. não me especializei em literatura hispanoamericana.
não tenho crônicas publicadas n‟o republica de lisboa. não passei
minha infância em pindamonhangaba. não canto a esperança. não recebi
nenhuma premiação em concurso de prosa e poesia. não tenho sete livros
inéditos. não sou considerado um dos maiores poetas brasileiros. nunca fui
convidado para dar palestras em universidades. não vejo poesia em tudo. não
faço parte do grupo noigrandes. não me interesso por literatura infantil. não sou
casado com o poeta afonso ávila. na minha estréia não recebi o prêmio
estadual de poesia. o crítico josé batista nunca disse nada a meu respeito. não
sofri influência de bilac. não sou ativo, nem dinâmico. não me dedico com
afinco à pecuária. não sou portador de vasto curriculum. não recebi mensão
honrosa no concurso de poesia ferreira gullar. não exerço nenhuma atividade
docente, nem decente. não iniciei minha carreira literária no exército. não fui a
primeira mulher eleita para a academia acreana de letras. não tenho poesias
traduzidas para o francês. não estou incluído numa antologia a ser publicada
no méxico. minha poesia não é corajosa. não gosto de arqueologia. walmir
ayalla nunca me considerou um revolucionário. nunca tentei compreender o
homem na sua totalidade. não vim para o brasil com 5 anos de idade. não
aprendi russo para ler maiakowski. meu pai não é chileno. não sou virgem, sou
capricórnio. não sou mãe de seis filhos. não me
responsabilizo pelos poemas que assino. não sou irônico. não considero
drummond o maior poeta da língua portuguesa. não sei em que ano aconteceu a semana de 22. não imito ninguém. não gosto de rock. não sou primo dos irmãos campos. não sou
nem quero ser crítico literário. nunca me elogiaram. nunca me acusaram de
plágio. minha poesia nunca veiculou nada. não sei o que vocês querem de mim. não espero publicar nenhum romance. não sou lírico. não tenho fogo.

não escrevi isto que vocês estão lendo.


Nicolas Behr

20 Abril 2010



Palácio da Justiça.

bicho, esse palácio

é a maior cascata!

Nicolas Behr

21 Março 2010

(setor de diversões sul, DF)


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"A história não queria sair, mas eu dei uns golpes nela e a deixei mansinha".

Foi isso que ele me disse quando chegou, segurando a resma de folhas e me oferecendo como se fosse um presente, ou como se fosse o jornal de hoje cheio de notícias boas. Passei os olhos pelos cantos, dando um suspiro e perguntando a mim mesmo se isso era realmente necessário, afinal, mais um escritorzinho de merda não iria ajudar nas vendas da revista, que aliás, eu acreditei desde o princípio que não iria passar do número dez e, vejam só, esta seria a décima edição quinzenal. Queríamos mesmo que a revista fosse adiante, apesar do pessimismo, e por isso tentamos o tal do Abreu de São Paulo, tentamos o Bohr daqui do DF, mas nenhum deles quer associar o seu nome à merda de uma revista sem prestígio. Aliás, até associariam, mas o preço não caberia de forma alguma dentro do nosso orçamento de editora que tem como sede uma sala alugada no Setor de Diversões Sul, do lado do bueiro de mármore que eles chamam de Rodoviária de Brasília.


Aquele jovem me parecia ridículo ali, de pé, com sua mochila jeans nas costas, bem reto e com o sorrisinho arrogante como todos os outros da mesma idade, aliás, acho que por trás do sorriso era fácil perceber a cara derrotada de quem não passou bem a noite, ou talvez dos que acordam cedo demais. Talvez só estivesse drogado, isso mesmo, talvez a sua falta de responsabilidade fosse tamanha que realmente teria aparecido na minha frente drogado, sabendo que eu era a única pessoa em todo este centro-oeste de merda que poderia fazer alguma coisa por ele, torná-lo um escritor de fato, porque seria sua primeira publicação; mas ali estava o filho da puta provavelmente com o rabo cheio de maconha, porque desde os meus tempos de faculdade eu não via olhos tão vermelhos quanto aqueles. Em todo o DF, eu vou repetir, em todo o DF não há um só editor que aceite contos de jovens sem referências, mas meu sócio estava disposto a arriscar, por isso dei-lhe o cartão quando o conheci numa noite dessas no teatro nacional, estava saindo de lá com minha esposa e ele me abordou perguntando se eu era Augusto Soares, disse que me mostraria uma história de deixar o cabelo em pé, e eu disse apressado "passe no meu escritório amanhã", dei-lhe um cartão e o esqueci até o dia seguinte, no caso, o dia em que segue minha narração e voltando a ela, ele continuava lá de frente pra minha mesa esperando de pé que eu lesse todas aquelas páginas do lixozinho que ele com certeza chamava de "minha literatura" para impressionar os seus amigos. Peguei o volume, sim, e nesse instante comecei a folhear preguiçosamente até ter certeza de que aumentaria sua ansiedade a ponto de fazê-lo dar o próximo passo. Vou tomar um café... espere um pouco.


Desculpe a demora, o que acontece é que as coisas aqui não funcionam como deveriam, entende? Olha, perdão, mas o senhor ainda não me disse qual o seu interesse nesse rapaz. Vamos encurtar a história, certinho? Eu publiquei aquele conto, mas tive que cortar alguns parágrafos que achei desnecessários, e além do mais, tínhamos espaço certo pra outras pessoas com um pouco mais de talento do que esse tal Vinícius Prado. Era uma história sobre um drogadinho igual a ele que perde a namorada num acidente de carro e começa a construir dentro da própria mente um domínio onde ela ainda exista, entende? Algo meio esquizofrênico, mas com um ar até simpático. Imaginem só a minha surpresa em relação ao número das vendas? Vendemos todos os números impressos e eu recebi boas críticas por dar vez aos jovens promissores do DF e isso permitiu um suspirozinho a mais pro nosso lado, certo? Queríamos que o garoto contribuísse para o próximo número, mas então ele sumiu e nenhum dos telefones que tínhamos dele funcionava...


Sim. Eu entendo. Então o senhor está me dizendo que ele faleceu? Isso, assassinado, exatamente, como não foi morte natural. É uma lástima... Realmente. Uma lástima. Acho que poderíamos lançar a versão integral do seu conto no próximo número. Escritores de um conto só não fazem sucesso, mas com o conto seguido de uma nota do editor explicando a situação, a coisa fica diferente, não acha? Pelo menos teríamos mais um outro suspiro, o que, com perdão da palavra, só seria possível pelo último suspiro vindo dele. Sim, claro. Se eu lembrar de mais alguma coisa... Sim, eu ligo. Agradeço a visita, senhor. Espero ter ajudado.




Augusto Soares Pinto, editor e sócio da Revista SOMA.
23 de julho de 2008.

28 Janeiro 2010

De Irmão Para Irmão



As coisas não podiam andar piores naquela época. Dos antigos amigos só eu continuava indo a sua casa e, de fato, era desagradável estar com ele. Até para mim, de vez em quando. Acho que nessa época o Diego não tomava banho com frequência. Passava dias sem sair do quarto e as vezes não queria ver ninguém. De todo modo o rompimento com a Alice foi o estopim para que isso acontecesse. Em parte, eu era responsável.

Visitava-o sempre depois do trabalho. Ambos morávamos em Taguatinga, ele próximo ao terminal da praça do Relógio e eu algumas quadras depois, na avenida central, de modo que, quando saía do metrô a noite, passava em frente a sua casa antes de ir pra minha. Conversávamos - ou melhor, eu falava e ele ouvia, mas nem sempre - e eu tentava quase sempre animá-lo falando que quando ele voltasse para a faculdade teria tempo de sobre para conhecer outras garotas. E também é verdade que eu não o abandonei por culpa; sim, admito que isso também aconteceu. O que eu posso dizer? Uma vez entrei em seu quarto sem bater, você vê, eu só empurrei a porta porque estava destrancada. O dia ainda não tinha acabado, mas lá dentro do quarto era quase um breu.

Chamei-o antes de dar uns passos, as vezes eu o surpreendia fazendo coisas mais íntimas, sei lá, não quero dar detalhes, mas dessa vez encontrei alguns livros espalhados pelo chão ao redor da sua cama. Quase todos os livros estavam abertos com as páginas viradas para o chão - é assim que ele marcava a sua leitura, não usava marcador de página e eu sempre ri disso porque sei que ele tem uma coleção deles desde criança. Puxei uma cadeira e peguei um livro do chão. O Livro dos Sonhos, Borges, página 78 ou 79, o conto era O Episódio do Inimigo. Compramos esse livro juntos depois de uma discussão no grupo literário sobre autores latinos. Sei que estremeci quando lembrei que foi nessa época que eu conheci a Alice, e no mesmo dia me apaixonei por ela. Naquele dia, me lembro também, quando ele a apresentou para mim, disse que era "a única garota que já o fizera voar".

- ... pro inferno, Léo.

Não tenho certeza se entendi certo o que ele havia dito. Na hora pensei ter ouvido "vai pro inferno, Léo", mas hoje penso que o tom lamurioso na voz dava a entender um "vou pro inferno, Léo". Larguei o livro sobre a cadeira e fiquei de pé. A partir daí as coisas ficam claras para mim, porque sei que essa foi nossa última conversa. Dei um suspiro longo, quase uma bufada (ele me chavama de chaleira porque eu sempre fizera esse ruído quando perdia a paciência) e olhei para o quarto em volta. Tinha um prato com uns pedaços de melão secos cheio de formigas e alguns mosquitos em volta, como se tivesse ficado ali o dia todo. No chão umas peças de roupa empurradas pra de baixo da cama e ali, no meio daquele pardieiro, uma foto de Alice sorrindo. A Alice do sorriso brilhante. Alice do sotaque gaúcho. Alice dos cabelos cheirosos, do beijo frio, da pele branca, das coxas firmes. Minha Alice. Eu não aguentaria mais, acho que você me entende, então contei a ele o que acontecia nos últimos meses entre ela e eu.

Ele se sentou na cama e por alguns instantes ficou com a cabeça apoiada nas mãos. Eu me lembro claramente disso, me lembro como se tivesse vivido esse momento agora a pouco, ou talvez seja só a impressão forte que ficou. Já não tenha certeza. O que seguiu foi que quando ele me olhou não estava chorando (como eu acreditei que estivesse), havia lucidez em seus olhos. Lucidez de mais eu acho, e nessas horas a lucidez é a própria loucura. Não me disse muita coisa, apenas disse que não queria que eu voltasse a vê-lo e que eu fosse embora dali agora, já. Eu respondi com um "sinto muito, meu irmão" e depois deixei o quarto e não voltei a casa dele.

Três ou quatro dias depois, Alice e eu soubemos que ele havia se matado. Pulou da janela do seu quarto indo cair direto na calçada. Morreu, se jogando do sétimo andar. Morreu tentando voar.

27 Janeiro 2010


Os Exploradores


(foto: GREGEO-UnB, Caverna 'Cortina Sagrada', 2008)


"Três cronópios e um fama¹ se associam espeleologicamente para descobrir as fontes subterrâneas de um manancial. Próximos da boca da caverna, um cronópio desce, segurado pelos outros, levando nas costas uma mochila com seus sanduíches preferidos (de queijo). Os outros dois cronópios 'cabrestantes' o deixam descer pouco a pouco, enquanto o fama escreve em um grande caderno os detalhes da expedição. Logo chega uma primeira mensagem do cronópio: furioso porque se enganaram e colocaram sanduíches de presunto na mochila. Agita a corda e exige que o subam. Os cronópios 'cabrestantes' se consultam aflitos, o fama se ergue com toda sua terrível estatura e diz: NÃO, com tal violência que os cronópios soltam a corda e acudem a acalmá-lo. Estão nisso quando chega outra mensagem, porque o cronópio caiu justamente sobre as fontes do manancial e de lá comunica que tudo vai mal, entre injúrias e lágrimas informa que os sanduíches são todos de presunto, que por mais que procure e procure entre os sanduíches de presunto, não há um só de queijo."

Historias de cronopios y famas, Julio Cortázar.

¹ Cronópios, para o autor, são os seres mais emotivos (assim como poetas) e os Famas são os racionais, que defendem a órdem estabelecida (assim como advogados).